Patrícia, 12 anos de idade, admitida por dispneia progressiva, cansaço e astenia nos últimos 3 dias. Tem antecedente pessoal de doença hematológica (foi adotada e os pais não sabem referir exatamente o histórico prévio), com quadros anteriores de dor intensa, infecções respiratórias e edema de dedos das mãos. Apresenta, neste momento, os seguintes sinais vitais: PA 98 x 66 mmHg; FC 101 bpm, FR 18 irpm e temperatura de 37°C. Ao exame físico, encontra-se pálida, sem alterações à ausculta pulmonar, com presença de um sopro sistólico audível em todo o precórdio e exame abdominal inocente. Exames laboratoriais demonstram: Hb = 4,5 g/dLl; reticulócitos corrigidos de 0,1%; plaquetas = 180.000/mm³ e leucócitos totais = 8.000/mm³. Dentre os seguintes, qual é o mais provável contribuidor para o quadro descrito?
Explicação
Uma pediatra explica a questão em voz alta e vai anotando, alternativa por alternativa.
Ler a transcrição
- Vamos começar analisando o caso da Patrícia. Ela tem doze anos de idade, o que é importante para pensarmos nas doenças crônicas que podem se manifestar nessa faixa etária.
- Os sintomas de dispneia progressiva, cansaço e astenia, que surgiram nos últimos três dias, nos indicam um quadro agudo de anemia.
- O antecedente de doença hematológica, mesmo sem detalhes, já nos alerta para uma condição crônica subjacente.
- E os quadros anteriores de dor intensa, infecções respiratórias e edema de dedos das mãos são muito sugestivos de doença falciforme, que é uma hemoglobinopatia comum.
- A palidez ao exame físico é um sinal clássico que confirma a anemia.
- O sopro sistólico audível em todo o precórdio é um achado comum em anemias graves, conhecido como sopro de fluxo, devido ao aumento do débito cardíaco.
- Agora, vamos aos exames laboratoriais. Uma hemoglobina de 4,5 gramas por decilitro é uma anemia muito grave, que justifica todos os sintomas da paciente.
- E este é o dado mais importante: os reticulócitos corrigidos de 0,1 por cento. Em uma anemia tão grave, o normal seria a medula óssea estar trabalhando a todo vapor, produzindo muitos reticulócitos. Um valor tão baixo indica que a medula não está respondendo, o que chamamos de reticulocitopenia.
- Juntando os pontos, a história de doença hematológica com crises de dor e dactilite, junto com a anemia grave, nos leva a pensar fortemente em uma hemoglobinopatia, como a doença falciforme.
- A anemia grave, combinada com a reticulocitopenia, que é a ausência de resposta da medula óssea, caracteriza uma crise aplástica.
- Em pacientes com hemoglobinopatias, como a doença falciforme, a causa mais comum de crise aplástica é a infecção pelo parvovírus B19, que ataca as células precursoras dos glóbulos vermelhos na medula.
- Agora, vamos analisar as alternativas. A alternativa A sugere sequestro esplênico. Essa condição, embora cause anemia aguda, geralmente se apresenta com esplenomegalia, que não foi descrita no exame físico da Patrícia, e, mais importante, com reticulocitose, ou seja, a medula óssea estaria tentando compensar a perda de sangue, o que não é o caso aqui.
- A alternativa B fala em hemólise intensa mediada por complemento. A hemólise, por si só, causaria uma queda da hemoglobina, mas a medula óssea responderia com um aumento na produção de reticulócitos, o que não vemos nos exames da Patrícia.
- A alternativa D menciona mudança brusca de temperatura no inverno. O frio pode, de fato, precipitar crises vaso-oclusivas em pacientes com doença falciforme, causando dor, mas não explica a reticulocitopenia acentuada e a anemia grave por supressão medular.
- A alternativa E, transfusão sanguínea, não se encaixa. Uma reação transfusional exigiria uma exposição temporal a uma transfusão recente, que não é mencionada no relato. Além disso, reações transfusionais geralmente causam hemólise, não reticulocitopenia.
- Por fim, a alternativa C, infecção prévia por parvovírus B19, é a mais provável. O parvovírus B19 é conhecido por interromper a eritropoiese, ou seja, a produção de glóbulos vermelhos, e causar crise aplástica em pacientes com hemoglobinopatias, como a doença falciforme. Isso explica perfeitamente a anemia grave com reticulócitos baixos da Patrícia.
- Então, lembre-se: em uma criança ou adolescente com doença falciforme e anemia grave acompanhada de reticulocitopenia, pense sempre em crise aplástica por parvovírus B19.
- Nos vemos na próxima questão.
Dúvidas respondidas
Perguntas de quem estudou esta questão, respondidas com a fonte ao lado.
Fontes 1
- About parvovirus B19CDC, 2025 · conferida em 22/09/2026
Comentários atualizados em . Redação própria baseada no caso e nas referências indicadas. Anotações do PDF utilizadas como ponto de partida, sem reprodução literal. Comentário não oficial da banca ou da SBP.