Neste artigo
- O que é o cálculo de doses de medicamentos em pediatria?
- Por que o cálculo de doses é fonte de erros graves?
- Como calcular mg/kg por dia?
- Onde encontrar calculadoras de medicamentos pediátricos?
- Como fazer a regra de três para medicações?
- Como calcular 7,5 mg por kg?
- Como orientar a família sobre a dose em casa?
- Perguntas frequentes sobre cálculo de doses de medicamentos
- Referências
Resposta rápida
Cálculo de doses de medicamentos em pediatria é converter a dose prescrita (mg/kg) em quantidade e volume, conferindo concentração, frequência e dose máxima. Exemplo: paracetamol de 10 a 15 mg/kg/dose, no máximo 75 mg/kg/dia (SBP 2021). Na suspeita de superdosagem: Disque-Intoxicação 0800 722 6001 ou SAMU 192.
1O que é o cálculo de doses de medicamentos em pediatria?
É a etapa que transforma uma dose já definida (em geral em mg/kg/dose ou mg/kg/dia) na quantidade de princípio ativo e no volume a administrar. Para isso, usa o peso, a concentração da apresentação e a frequência prescrita. A conta não escolhe o medicamento nem a dose: só converte uma indicação clínica já estabelecida.
Em crianças, o mesmo fármaco existe em solução, suspensão, gotas, comprimido ou ampola, com concentrações diferentes. O paracetamol líquido, por exemplo, é vendido como suspensão oral de 100 mg/mL para bebês e de 32 mg/mL para crianças[4]. Ler só o nome do medicamento, portanto, não basta: é preciso identificar a unidade, a concentração e a via.
O peso entra no cálculo quando a dose é expressa por quilo. Em outras situações também contam a idade, a superfície corporal, a função renal ou hepática, a indicação e a gravidade. O Ministério da Saúde recomenda que, nos medicamentos cujas doses dependem de peso, superfície corporal ou clearance de creatinina, o prescritor registre esses dados na própria prescrição, para facilitar a análise farmacêutica e o trabalho da enfermagem[2].
2Por que o cálculo de doses é fonte de erros graves?
Porque um deslize de unidade, de vírgula ou de concentração multiplica a dose. O protocolo do Ministério da Saúde afirma que o cálculo das doses é fonte importante de erros graves e que o risco diminui quando o prescritor conhece bem o medicamento e confere o cálculo[2].
Os erros mais previsíveis, segundo o mesmo protocolo[2]:
- Vírgula mal posicionada: “2,5 mL” lido como “25 mL”; não use ponto no lugar da vírgula[2].
- Zero antes da vírgula: “0,5 g” pode ser lido como “5 g”, um erro de 10 vezes; prefira “500 mg”[2].
- Abreviaturas “U” e “UI”: podem levar a doses 10 ou 100 vezes maiores; escreva “unidades” por extenso[2].
- Microgramas: devem ser escritos por extenso, sem abreviatura[2].
Na prática ambulatorial o problema também aparece. A SBP lembra que os antitérmicos são causa comum de intoxicação na infância, em geral por erro de dose ou de intervalo[1]. Num estudo brasileiro com 575 cuidadores, citado pela SBP, 43,3% das crianças tinham recebido subdose de antitérmico e 8,0%, dose acima da recomendada[1].
No hospital, a conferência também falha. Em 334 observações do preparo e da administração de medicamentos endovenosos numa enfermaria pediátrica e numa UTI pediátrica de Belo Horizonte, nenhum procedimento cumpriu todas as barreiras de segurança. A conferência de medicamento, dose e via com a prescrição e a dupla checagem estiveram entre as barreiras menos cumpridas[3].
3Como calcular mg/kg por dia?
Multiplique a dose prescrita em mg/kg/dia pelo peso em kg para obter a dose diária total. Divida esse total pelo número de tomadas prescrito para chegar à dose de cada administração. Depois, converta essa quantidade em volume pela concentração da apresentação que será usada.
Qual a fórmula para o cálculo?
- Dose diária (mg) = dose prescrita (mg/kg/dia) × peso (kg).
- Dose por tomada (mg) = dose diária (mg) ÷ número de tomadas por dia.
- Volume por tomada (mL) = dose por tomada (mg) ÷ concentração (mg/mL).
Juntando tudo: volume por tomada (mL) = [dose (mg/kg/dia) × peso (kg)] ÷ número de tomadas ÷ concentração (mg/mL). Mililitro e centímetro cúbico têm o mesmo volume, mas a unidade escrita deve seguir o rótulo e o dosador.
Quando a dose é prescrita por tomada (mg/kg/dose), pule a divisão pela frequência e confira se a soma das tomadas do dia respeita o teto diário. Exemplo com os valores da SBP para o paracetamol, de 10 a 15 mg/kg/dose e máximo de 75 mg/kg/dia: numa criança de 10 kg, a soma das tomadas não pode passar de 750 mg por dia[1].
Se a prescrição não informa a concentração, a frequência ou a unidade, a conta está incompleta. Pare e confirme com quem prescreveu.
Quais fatores influenciam o cálculo?
Peso atual, idade, indicação, via, função renal e hepática, prematuridade, gravidade do quadro e teto de dose. Conta também a apresentação que está, de fato, nas mãos de quem vai administrar.
Trocar a apresentação sem recalcular é um erro clássico. Usando os números acima: 10 mg/kg para uma criança de 10 kg são 100 mg, ou seja, 1 mL da suspensão de 100 mg/mL ou cerca de 3,1 mL da de 32 mg/mL[1][4]. Se esses 3,1 mL forem medidos do frasco de 100 mg/mL, a criança recebe cerca de 310 mg, mais que o dobro do limite de 15 mg/kg/dose[1][4].
A frequência merece revisão separada: dose diária não é dose por tomada, e o intervalo prescrito não deve ser trocado por conveniência. A SBP também não recomenda alternar ou associar antitérmicos, porque isso confunde os cuidadores e aumenta o risco de superdosagem[1].
- Confirme a indicação, o peso registrado e a unidade da dose prescrita.
- Leia a concentração e o volume da apresentação que realmente será usada.
- Calcule a quantidade de princípio ativo (diária ou por tomada, conforme a prescrição).
- Converta em volume pela concentração da apresentação.
- Distribua conforme a frequência prescrita, sem criar outro esquema.
- Confira teto de dose, via, dosador e identificação da criança antes de administrar.
4Onde encontrar calculadoras de medicamentos pediátricos?
Em sistemas de prescrição eletrônica, aplicativos profissionais e sites especializados. Qualquer uma delas só é segura se você conferir a fonte das doses, a data de atualização, as unidades, a concentração cadastrada e os limites que valem para o caso.
A calculadora faz a operação matemática, mas pode não levar em conta a indicação, a função renal, o teto de dose ou uma apresentação específica. Use-a como apoio à conferência, nunca no lugar da avaliação clínica, da prescrição ou da bula.
Ao usar uma calculadora, confira se o peso está em kg, se a dose está na unidade certa e se a concentração corresponde ao frasco disponível. Diante de um resultado inesperado, não “corrija” arredondando: pare e confirme. O Ministério da Saúde recomenda pedir a revisão de um colega sempre que calcular doses de medicamentos potencialmente perigosos ou de alta vigilância. Em caso de dúvida sobre posologia, preparo ou administração, consulte o farmacêutico e fontes atualizadas[2].
5Como fazer a regra de três para medicações?
Monte a proporção entre a quantidade de princípio ativo contida num volume conhecido (a concentração do rótulo) e a dose desejada, deixando o volume como incógnita. A regra de três responde apenas “qual volume contém a dose prescrita?”; ela não diz se a dose está certa.
O que é a regra de três?
É uma técnica de proporção entre duas grandezas. No cálculo de medicamentos, ela relaciona dose (mg) e volume (mL). As unidades precisam estar alinhadas: se a concentração está em mg por mL, a dose desejada também tem de estar em mg. Misturar mg com g ou microgramas sem converter invalida o resultado.
Como aplicar a regra de três no cálculo?
Exemplo com paracetamol a 15 mg/kg/dose numa criança de 10 kg (dose de 150 mg) e a suspensão de 100 mg/mL[1][4]:
- 100 mg — 1 mL[4]
- 150 mg — x mL[1]
- x = (150 × 1) ÷ 100 = 1,5 mL[1][4]
A forma geral é: volume (mL) = dose desejada (mg) ÷ dose disponível (mg) × volume disponível (mL). Se o valor prescrito for diário, ainda é preciso dividir pela frequência prescrita.
Depois da conta, verifique se o resultado faz sentido: a unidade final é mL? O volume cabe no dosador? A concentração foi copiada certo? O total do dia respeita o teto? O Ministério da Saúde recomenda instrumentos de medida padronizados, como seringas milimetradas, para medir as doses com exatidão[2].
- Copie a dose disponível e o volume correspondente exatamente como estão no rótulo.
- Registre a dose desejada na mesma unidade de massa.
- Monte a proporção mantendo as grandezas alinhadas.
- Resolva para encontrar o volume.
- Confira unidade, concentração, frequência, teto e dosador antes de administrar.
E quando a apresentação é em gotas?
Converta mg em gotas pela quantidade de princípio ativo por gota, nunca por regras do tipo “uma gota por quilo”. A SBP preconiza dipirona de 10 a 12 mg/kg/dose e lembra que, no produto de referência, 1 gota contém 25 mg. Por isso, o hábito de dar 1 gota/kg leva à superdosagem, com risco de hipotensão, hipotermia e sudorese excessiva[1].
Numa criança de 10 kg, 10 mg/kg correspondem a 100 mg, isto é, 4 gotas do produto de referência; com 1 gota/kg ela receberia 10 gotas, ou 250 mg (25 mg/kg)[1]. A SBP alerta ainda que os gotejadores das diversas apresentações liberam volumes diferentes, em geral menores[1]. Por isso, leia sempre a bula do produto em uso.
6Como calcular 7,5 mg por kg?
Multiplique 7,5 pelo peso em kg: o resultado é a dose em mg daquela tomada (ou do dia, se a prescrição for em mg/kg/dia)[1]. Depois, divida pela concentração do frasco para obter o volume.
Exemplo: 7,5 mg/kg está dentro da faixa antitérmica do ibuprofeno indicada pela SBP, de 5 a 10 mg/kg/dose; a ação anti-inflamatória exige de 15 a 20 mg/kg[1]. Numa criança de 12 kg, 7,5 × 12 = 90 mg por tomada[1]. O volume depende da concentração impressa no rótulo do frasco em uso, que deve ser lida a cada troca de apresentação[4].
Qual a importância da precisão no cálculo?
Um número matematicamente correto pode virar uma administração errada se o peso estiver desatualizado, se a dose for diária e não por tomada ou se a apresentação for outra. A precisão começa antes da multiplicação e só termina na medida do volume.
Arredondar sem critério é perigoso quando o volume é pequeno. O arredondamento deve seguir a graduação do dosador, a norma da instituição e a prescrição. Na escrita, separe sempre a dose (mg) do volume (mL).
Como checar antes de administrar?
Com dupla checagem e com os “certos” da administração. O Ministério da Saúde recomenda dupla checagem na farmácia e no recebimento pela enfermagem, mais uma checagem antes da administração. Ela é particularmente importante em Pediatria, Oncologia e terapia intensiva[2]. O protocolo cita nove certos: paciente, medicamento, via, hora, dose, registro, ação, forma e resposta[2].
- Confirme se a dose está de acordo com a prescrição e com a faixa de referência.
- Verifique o peso registrado e a unidade antes de qualquer operação.
- Multiplique o peso pela dose prescrita para obter a quantidade de princípio ativo.
- Converta para o volume da apresentação prescrita.
- Revise frequência, teto diário e dosador.
- Interrompa e peça ajuda se suspeitar de erro.
7Como orientar a família sobre a dose em casa?
Informe a dose em mL (ou em gotas, quando for o caso) para a apresentação exata que a família vai comprar e mostre como medir com o dosador do próprio produto. A Anvisa orienta seguir o prescritor, conferir na bula o volume indicado para o peso e usar a seringa dosadora ou o copo medidor que acompanha o medicamento[4].
- Receita e embalagem juntas: a SBP encontrou, nas agendas de creches, doses e intervalos errados, concentração diferente da prescrita e até via incorreta. Ela recomenda enviar sempre a receita e o remédio na embalagem original, com o nome da criança[5].
- Troca de frasco: explique que outra apresentação do mesmo medicamento exige uma nova conta do volume[4].
- Sobras e automedicação: nada de repetir receita antiga ou dar doses por conta própria; o peso e o quadro da criança mudam.
- Suspeita de superdosagem: ligar para o Disque-Intoxicação (0800 722 6001). Se houver sonolência incomum, convulsão, dificuldade para respirar ou piora rápida, chamar o SAMU (192) e levar a embalagem.
Erros de administração devem ser notificados à Anvisa pelo VigiMed, diretamente ou pelo serviço de farmacovigilância da instituição[4].
8Perguntas frequentes sobre cálculo de doses de medicamentos
Como transformar mg em mL?
Divida a dose em mg pela concentração da apresentação em mg/mL. Com paracetamol a 100 mg/mL, por exemplo, 150 mg correspondem a 1,5 mL[1][4]. Se o frasco for outro, a conta muda.
Quantas gotas de dipirona por kg posso prescrever?
A SBP preconiza 10 a 12 mg/kg/dose e lembra que, no produto de referência, 1 gota tem 25 mg[1]. Por isso, a regra de 1 gota/kg leva à superdosagem: calcule em mg e converta pelas gotas do produto em uso[1].
Qual a dose máxima de paracetamol para criança?
Segundo a SBP, a dose terapêutica vai de 10 a 15 mg/kg/dose, com máximo de 75 mg/kg por dia; a dose tóxica é de 120 mg/kg[1]. Some todas as tomadas do dia antes de liberar uma nova.
Qual a diferença entre mg/kg/dia e mg/kg/dose?
Em mg/kg/dia, o resultado é o total do dia e precisa ser dividido pelo número de tomadas prescrito. Em mg/kg/dose, o resultado já é a tomada, mas a soma do dia ainda precisa respeitar o teto diário[1].
Por que a dupla checagem é tão importante na pediatria?
Porque as doses são individualizadas, e pequenos erros de vírgula ou de unidade multiplicam a dose por 10 ou mais[2]. O Ministério da Saúde destaca a dupla checagem em Pediatria, sobretudo no momento da administração[2].
Pode alternar antitérmicos para baixar a febre?
A SBP não recomenda alternar nem associar antitérmicos. Isso confunde os cuidadores e aumenta o risco de superdosagem, sem benefício em relação ao uso de um só medicamento[1].
Texto preparado com apoio de IA e conferido automaticamente nas fontes abaixo em 28 de outubro de 2026; revisão médica: pendente. Como fazemos
Referências
- Manejo da Febre Aguda — Documento Científico dos Departamentos Científicos de Pediatria Ambulatorial e de Infectologia · Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), 2021 sbp.com.br ↗
- Protocolo de segurança na prescrição, uso e administração de medicamentos (Anexo 03, Programa Nacional de Segurança do Paciente) · Ministério da Saúde / Anvisa / Fiocruz, 2013 gov.br ↗
- Adesão às barreiras de segurança no processo de administração de medicamentos na pediatria (Texto & Contexto Enfermagem, v. 29) · Texto & Contexto Enfermagem (SciELO Brasil), 2020 scielo.br ↗
- Anvisa alerta sobre o uso incorreto de paracetamol · Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), 2021 gov.br ↗
- Sociedade Brasileira de Pediatria divulga orientações para uso de medicamentos em creches e escolas · Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), 2017 sbp.com.br ↗
Material de apoio para profissionais de saúde. Não substitui o julgamento clínico, a bula nem as diretrizes originais.
