Criança, sexo masculino, 10 anos de idade, em quimioterapia devido à neuroblastoma diagnosticado há 6 meses, sendo a última sessão realizada há 10 dias, está no terceiro dia de internação na enfermaria de pediatria por neutropenia febril, em uso de cefepime. Está afebril nas últimas 36 horas, sem queixas álgicas. Ao exame físico, está consciente, orientado, hidratado, descorado +/4+, sem alterações no restante do exame. Mãe refere não ter novas queixas, mas comenta que ele está inapetente, tem recusado a dieta e não dormiu bem. Refere também que, nas últimas 3 semanas, está mais abatido, tem dormido durante quase todo o dia e, quando acordado, apresenta-se irritado, menos colaborativo que o usual e recusase a sair da cama e interagir com familiares. Na enfermaria, segue sem interagir com outros pacientes e com a equipe multiprofissional. • Exames laboratoriais na admissão: Hb: 8,8 g/dL Ht: 27% Leucócitos: 400/mm3 (sem diferencial) Plaquetas: 55 mil/mm3 • Exames laboratoriais de hoje: Hb: 8,6 g/dL Ht: 26% Leucócitos: 600/mm3 (sem diferencial) Plaquetas: 59 mil/mm3 Na+: 137 mEq/L K+: 4,3 mEq/L Assinale a alternativa que apresenta a conduta mais indicada para a evolução descrita no caso.
Explicação
Uma pediatra explica a questão em voz alta e vai anotando, alternativa por alternativa.
Ler a transcrição
- Vamos começar analisando o caso clínico. Temos um paciente pediátrico, um menino de dez anos de idade, o que já nos situa em uma faixa etária escolar.
- Ele está em tratamento de quimioterapia devido a um neuroblastoma, um câncer infantil, e a última sessão foi há dez dias, o que significa que ele está em um período de recuperação imediata pós-quimio, com a imunidade provavelmente comprometida.
- O motivo da internação atual é neutropenia febril, uma complicação grave e comum da quimioterapia, e ele já está no terceiro dia de internação recebendo cefepime.
- Um dado importante é que ele está afebril nas últimas trinta e seis horas e sem queixas álgicas, indicando que o quadro agudo da neutropenia febril está sob controle e ele não está sentindo dor física no momento.
- Ao exame físico, ele está consciente, orientado e hidratado, mas chama a atenção o descorado dois cruzes em quatro cruzes, que sugere anemia, e os exames laboratoriais confirmam isso.
- A mãe relata que ele está inapetente, recusando a dieta e não dormiu bem, o que já nos alerta para alterações no apetite e no sono.
- E o mais relevante é que, nas últimas três semanas, ele está mais abatido, dormindo quase o dia todo, irritado, menos colaborativo e se recusa a sair da cama e interagir com a família e a equipe, mostrando um prejuízo funcional e social persistente.
- Os exames laboratoriais mostram uma hemoglobina de 8,6 gramas por decilitro e plaquetas de 59 mil por milímetro cúbico, confirmando a anemia e uma plaquetopenia, mas que não se agravaram significativamente desde a admissão.
- Agora, vamos conectar esses achados. Temos um paciente oncológico, em um período delicado pós-quimioterapia, que apresentou uma complicação aguda, a neutropenia febril, mas que está em melhora clínica.
- Apesar da melhora do quadro infeccioso e da ausência de dor, o que realmente se destaca são as alterações de comportamento e humor que a mãe relata, que já duram três semanas.
- Esses sintomas incluem inapetência, alteração do sono, irritabilidade, isolamento social, recusa em interagir e um abatimento geral, que impactam significativamente a qualidade de vida e o funcionamento diário do menino.
- Em um paciente com câncer, que passa por tratamentos agressivos e internações, esses sinais são muito preocupantes e levantam uma forte suspeita de depressão ou de um sofrimento psicológico importante que precisa ser investigado.
- A anemia, embora presente, não explica de forma completa e específica todos esses sintomas comportamentais e de humor tão persistentes.
- Vamos analisar as alternativas, começando pelas incorretas. A alternativa A sugere considerar privação sensorial e dar alta hospitalar.
- Essa alternativa está incorreta porque a alta hospitalar não resolveria a anedonia e o prejuízo funcional que o paciente apresenta, e não dispensa a necessidade de avaliar o risco emocional subjacente.
- A alternativa B propõe considerar o quadro compatível com ajustamento à doença, sem investigações adicionais.
- Essa está incorreta porque atribuir todos os sintomas a uma simples adaptação pode atrasar um diagnóstico importante e o suporte necessário para o paciente, especialmente com sintomas tão persistentes e impactantes.
- A alternativa D sugere corrigir os parâmetros hematimétricos com transfusão de concentrado de hemácias e observar se há melhora da adinamia.
- Essa alternativa está incorreta porque, embora a transfusão possa ser indicada para a anemia, ela não é um teste diagnóstico para depressão, e os sintomas do paciente vão muito além da adinamia que a anemia poderia causar.
- Finalmente, a alternativa C indica solicitar avaliação psiquiátrica e suporte psicológico por suspeita de depressão.
- Essa é a conduta mais indicada. Os sintomas de anedonia, isolamento e prejuízo funcional persistente em uma criança com câncer são fortes indicadores de depressão e merecem uma avaliação especializada de saúde mental para distinguir se são sintomas da doença, do tratamento ou uma depressão em si, e para oferecer o suporte adequado.
- Então, lembre-se: uma criança de dez anos com câncer, que apresenta anedonia e isolamento persistentes, sempre deve ter a possibilidade de depressão investigada.
- Nos vemos na próxima questão.
Dúvidas respondidas
Perguntas de quem estudou esta questão, respondidas com a fonte ao lado.
Fontes 1
- Depression in children and young people — recommendationsNICE, versão online · conferida em 22/09/2026
Comentários atualizados em . Redação própria baseada no caso e nas referências indicadas. Anotações do PDF utilizadas como ponto de partida, sem reprodução literal. Comentário não oficial da banca ou da SBP.