Pontos-chave
- Febre: axilar ≥ 37,5 °C (corresponde a 38 °C oral ou retal). A intensidade não prediz infecção bacteriana grave, exceto no menor de 3 meses com leucocitose ou PCR elevada.1
- Antitérmico pelo desconforto, não pelo número, em monoterapia: paracetamol, dipirona ou ibuprofeno; sem alternar nem associar.1,2
- FSSL: menor de 30 dias é internação com investigação completa e antibiótico empírico; de 1 a 3 meses, critérios de Rochester; de 3 a 36 meses, a conduta depende da vacinação e da temperatura.1
- Suspeita de dengue: sem AINE; paracetamol (máx. 60 mg/kg/dia) ou dipirona.1,3
Neste artigo
- Definição e medida da temperatura
- Avaliação da criança febril: sinais de gravidade
- Febre sem sinais localizatórios (FSSL) por idade
- Antitérmicos: indicação, doses e segurança
- Alternância, métodos físicos e uso preventivo
- Febre nas arboviroses: dengue
- Como o tema cai na prova
- Perguntas frequentes
- Referências
1Definição e medida da temperatura
A SBP passou a adotar, no Documento Científico de maio de 2025, temperatura axilar ≥ 37,5 °C, equivalente a 38 °C oral ou retal. A temperatura retal continua sendo o padrão-ouro da temperatura central, mas é invasiva; para casa e escola, recomenda-se a axilar com termômetro digital.1
| Situação | Recomendação da SBP (2025) |
|---|---|
| Menores de 4 semanas, qualquer ambiente | Axilar com termômetro digital (evidência III, recomendação B) |
| Menores de 1 ano, qualquer ambiente | Só termômetro digital |
| Maiores de 4 semanas, hospital ou ambulatório | Axilar digital ou infravermelho (timpânico, com ou sem contato), por profissional treinado |
Adaptado da diretriz italiana de febre, citada pela SBP.1
Febre ou hipertermia. Na febre, há extremidades frias, ausência de sudorese, sensação de frio, tremores, taquicardia e taquipneia. Na hipertermia (excesso de roupa, ambiente quente, exercício), há vasodilatação periférica, extremidades quentes e sudorese; antitérmico não age.1
As fontes divergem: Local de medida e ponto de corte
A AAP e o UpToDate definem febre no lactente pequeno pela temperatura retal ≥ 38 °C, e é com ela que foram feitos os estudos de risco de infecção bacteriana grave.4,5 O NICE prefere a axilar eletrônica abaixo de 4 semanas, como a SBP.2 A Caderneta da Criança (Ministério da Saúde, 7ª ed., 2024) usa axilar ≥ 37,5 °C como sinal de perigo no menor de 2 meses, como a SBP.6 O termômetro de testa, segundo o UpToDate, não deve orientar decisão clínica.2
2Avaliação da criança febril: sinais de gravidade
A altura da febre não tem valor prognóstico nem etiológico, e a resposta ao antitérmico não separa vírus de bactéria.1,2 A avaliação se apoia no estado geral e nos sinais vitais, classificados pelo semáforo de risco (verde, amarelo, vermelho):1
| Parâmetro | Sinal de alerta |
|---|---|
| Frequência cardíaca | ≥ 160 bpm (< 12 meses) · ≥ 150 bpm (12–24 meses) · ≥ 140 bpm (2–5 anos) |
| Frequência respiratória | > 50 irpm (6–12 meses) · > 40 irpm (> 12 meses) |
| Saturação de O₂ | ≤ 95% |
| Enchimento capilar | > 3 segundos |
| Hidratação | Mucosas secas, turgor diminuído |
| Atividade | Pouca resposta a estímulos, sonolência, gemência |
Valores do Documento Científico da SBP de 2025.1
Febre por 5 dias ou mais se associou a mais infecção bacteriana grave (8,4% contra 5,7%), em geral pneumonia ou ITU. Febre que persiste, sobe de patamar ou ganha sintoma localizado pede reavaliação.2
As fontes divergem: Quando reavaliar a febre que persiste
No protocolo de FSSL, a SBP pede reavaliação diária e define FSSL como febre de até 7 dias.1 O UpToDate sugere reavaliar a febre com desconforto que dura mais de 2 a 3 dias e considerar diagnósticos alternativos depois de 4 a 5 dias, ou antes, se a febre subir de patamar ou surgir foco novo.2
3Febre sem sinais localizatórios (FSSL) por idade
FSSL é a febre com menos de 7 dias de duração em que a história e o exame físico não revelam a causa. A maioria é infecção viral autolimitada ou o pródromo de doença benigna; poucas são infecção bacteriana grave.1 A SBP reproduz o protocolo do HU-USP (Tratado de Pediatria, 2017), baseado em Baraff e Rochester, que reduziu o uso empírico de antibiótico sem deixar de identificar as infecções graves:1
| Idade (bom estado geral) | Conduta pela SBP (protocolo HU-USP) |
|---|---|
| Comprometimento do estado geral, qualquer idade | Internação, hemocultura, urina e urocultura, LCR, radiografia de tórax e antibiótico empírico |
| < 30 dias | Internação, pesquisa de vírus respiratório, hemograma, hemocultura, urina e urocultura, LCR, radiografia de tórax e antibiótico empírico |
| 1 a 3 meses | Critérios de Rochester com pesquisa viral, hemograma e urina. Baixo risco: reavaliação diária obrigatória. Alto risco: internação, culturas, LCR, radiografia e antibiótico empírico |
| 3 a 36 meses, vacinação completa | Pesquisa viral, urina e urocultura; reavaliação diária |
| 3 a 36 meses, vacinação incompleta, TAX ≤ 39 °C | Reavaliação diária; considerar urina e urocultura |
| 3 a 36 meses, vacinação incompleta, TAX > 39 °C | Urina e urocultura. Leucocitúria > 5 × 10⁵/mL: tratar ITU. Sem leucocitúria: hemograma; leucócitos ≥ 20.000 ou neutrófilos ≥ 10.000/mm³ → hemocultura e radiografia; radiografia normal (risco de bacteremia oculta): ceftriaxona 50 mg/kg IM 1×/dia, com reavaliação diária até o resultado das culturas |
Tabela 1 do Documento Científico da SBP de 2025.1
As fontes divergem: O fluxograma da SBP e um ponto de leitura
No fluxograma original, os dois ramos da vacinação incompleta aparecem como "Tax ≤ 39 °C"; pela lógica do protocolo, o segundo ramo é o da temperatura acima de 39 °C, e é assim que ele está na tabela acima.1
As fontes divergem: SBP (Rochester e Baraff) e AAP 2021 (PECARN)
Para o lactente de 8 a 60 dias em bom estado, a AAP 2021 e o UpToDate estratificam por idade e marcadores inflamatórios, com procalcitonina: de 8 a 21 dias, investigação completa de sepse; de 22 a 28 dias com marcadores normais, o LCR pode ser dispensado por decisão compartilhada; de 29 a 60 dias, regra do PECARN; de 61 a 90 dias, só urina colhida por sondagem.4,5,7 Entre 3 e 36 meses, o UpToDate define FSSL a partir de 39 °C e, no vacinado, dispensa exames de sangue; no não vacinado, indica hemocultura e ceftriaxona a partir de procalcitonina ≥ 0,5 ng/mL, PCR > 20 mg/L, leucócitos ≥ 15.000 ou neutrófilos ≥ 10.000/mm³, contra o corte de 20.000 leucócitos do protocolo da SBP.8
4Antitérmicos: indicação, doses e segurança
Não existe valor "mágico" de temperatura para medicar. O antitérmico é indicado quando há desconforto evidente (choro intenso, irritabilidade, redução da atividade e do apetite, distúrbio do sono). No Brasil, a SBP recomenda paracetamol, dipirona e ibuprofeno; o AAS é contraindicado (síndrome de Reye).1
| A partir de | Por dose | Máximo diário | |
|---|---|---|---|
| Paracetamol | Neonatos e > 3 kg | 10–15 mg/kg, a cada 4–6 h | 50–75 mg/kg/dia |
| Dipirona | 3 meses e > 5 kg | 10–16 mg/kg, a cada 6–8 h | 40–64 mg/kg/dia (conferir a bula) |
| Ibuprofeno | 6 meses e > 5 kg | 5–10 mg/kg, a cada 6–8 h | 40 mg/kg/dia |
Quadro 1 do Documento Científico da SBP de 2025.1 No menor de 1 mês, o paracetamol é o único antitérmico recomendado, com dose ajustada à idade gestacional.
Dose de antitérmico pelo peso
Faixas do Quadro 1 da SBP (2025). Confira sempre a concentração do produto.
Digite o peso para ver a faixa de dose em mg e em mL.
Ferramenta de apoio para profissionais. Não substitui a prescrição nem a bula do produto. No app, a dose sai na receita, com a apresentação escolhida. Abrir o Pediatrando →
- Paracetamol: dose tóxica de 120 mg/kg na criança. Somar todas as fontes (antigripais, associações). O Lexidrug limita a 5 doses em 24 h e a 4 g/dia, e não recomenda dose de ataque na rotina.1,2,9
- Dipirona: início em 30–60 min, duração de 4–6 h. A hipotensão é o efeito adverso mais frequente na rotina, em geral por dose acima da faixa; agranulocitose é excepcional. No produto de referência, 1 gota = 25 mg: o hábito de "1 gota por quilo" equivale a 25 mg/kg, uma superdose.1
- Ibuprofeno: 5–10 mg/kg como antitérmico e analgésico; 15–20 mg/kg para efeito anti-inflamatório. Evitar na doença renal crônica e na suspeita de dengue, com cautela na asma induzida por AINE;1 usar só na criança bem hidratada.2
- Doença crônica: na hepatopatia, priorizar paracetamol em dose ajustada; na insuficiência renal crônica, evitar ibuprofeno.1
As fontes divergem: Doses e idade mínima: SBP, Lexidrug e bula
Dipirona: a SBP indica 10–16 mg/kg/dose no Quadro 1 de 2025, e o mesmo documento usa 10 mg/kg na dengue.1 O Lexidrug não fixa mg/kg para dipirona (o fármaco não existe nos EUA) e remete à bula de cada produto, a partir dos 3 meses.10 Ibuprofeno: o Lexidrug aceita a partir de 3 meses e 5 kg, com dados limitados abaixo de 6 meses, e teto de 600 mg/dose; a SBP mantém 6 meses.1,11 Paracetamol: AAP e UpToDate sugerem não usar antes dos 3 meses sem avaliação médica, porque a febre pode ser o único sinal de infecção grave.2
Gotejadores. Em estudo brasileiro com 575 cuidadores, 43% das crianças recebiam subdose e 8% superdose; os gotejadores de genéricos e similares liberam gotas de volume variável, quase sempre menor que o do produto de referência. Prescreva em mL ou confira o número de gotas por mL da marca.1
5Alternância, métodos físicos e uso preventivo
- Alternar ou associar antitérmicos: não recomendado. Todos agem pela mesma via (inibição da COX e da PGE2 hipotalâmica); a prática não tem respaldo e aumenta o risco de intoxicação.1 O UpToDate também sugere não combinar nem alternar (grau 2B).2
- Métodos físicos: não recomendados, exceto na hipertermia (temperatura central ≥ 40 °C com alteração do sistema nervoso central). Têm efeito rápido e curto e aumentam calafrios e irritabilidade.1 Se usados como adjuvante, água morna (cerca de 30 °C) e nunca álcool.2
- Convulsão febril (2–5% das crianças de 6 meses a 5 anos): antitérmico profilático não reduz a recorrência (metanálise com 540 crianças; OR 0,9, IC 95% 0,57–1,43) nem interrompe a crise; serve só ao conforto. Crise simples não exige EEG, exames de sangue nem neuroimagem.1,12
- Antes de vacinas: não usar paracetamol profilático de rotina, que pode reduzir a imunogenicidade, sobretudo nas primeiras doses.1
As fontes divergem: Alternância: NICE e prática real
O NICE admite alternar apenas se o desconforto persistir ou voltar antes da próxima dose, e o UpToDate cita especialistas que trocam de fármaco se não houver melhora em 3–4 horas.2 A SBP mantém a recomendação contra a alternância e lembra que, no Brasil, 26,7% dos cuidadores alternavam, com 70% das doses abaixo da mínima recomendada.1
6Febre nas arboviroses: dengue
Na dengue, a queda da febre (do 3º ao 7º dia) pode marcar o início da fase crítica, com extravasamento plasmático: dor abdominal intensa, vômitos persistentes, letargia, sangramento de mucosas, hipotensão postural, hepatomegalia > 2 cm e hematócrito em ascensão.1
- Paracetamol: 10–15 mg/kg, intervalo mínimo de 4–6 h, máximo de 60 mg/kg/dia.1
- Dipirona: 10 mg/kg a cada 6 h (conferir a bula por peso e idade).1
- AINE (ibuprofeno) e AAS: contraindicados, pelo risco de sangramento e de lesão renal no extravasamento.1,3
- Hidratação oral precoce e abundante é o pilar do tratamento.1
As fontes divergem: Antitérmico na dengue: MS e OMS
O Ministério da Saúde admite dipirona e paracetamol; a OPAS e a OMS recomendam só o paracetamol.3
7Como o tema cai na prova
Perguntas frequentes
Qual a definição de febre pela SBP em 2025?
Temperatura axilar igual ou superior a 37,5 °C, que corresponde a 38 °C pela medida oral ou retal, segundo o Documento Científico nº 206 da SBP, de maio de 2025.
Qual a dose de dipirona por kg em criança?
Pela SBP (2025), 10 a 16 mg/kg por dose, a cada 6 a 8 horas, a partir de 3 meses e 5 kg, com máximo de 40 a 64 mg/kg/dia (conferir a bula). No produto de referência em gotas, 1 gota tem 25 mg, então "1 gota por quilo" é superdose.
Qual a dose de paracetamol em criança?
10 a 15 mg/kg por dose, a cada 4 a 6 horas, com máximo de 75 mg/kg/dia pela SBP (até 5 doses e 4 g/dia pelo Lexidrug). Na suspeita de dengue, o máximo diário cai para 60 mg/kg.
Ibuprofeno pode ser usado a partir de que idade?
A partir de 6 meses e 5 kg, pela SBP. O Lexidrug admite a partir de 3 meses e 5 kg, com dados limitados abaixo dos 6 meses.
Pode alternar antitérmicos?
Não. A SBP não recomenda alternar nem associar antitérmicos, e o UpToDate sugere o mesmo (grau 2B): não há benefício clínico demonstrado e o risco de erro de dose aumenta.
Como conduzir febre sem sinais localizatórios em menor de 30 dias?
Pela SBP, internação, pesquisa de vírus respiratório, hemograma, hemocultura, urina e urocultura, LCR, radiografia de tórax e antibiótico empírico, mesmo em bom estado geral. A AAP 2021 estratifica por idade (8–21 e 22–28 dias) e por marcadores inflamatórios.
Conteúdo conferido em 4 de outubro de 2026 nas fontes abaixo, na ordem de prioridade: Sociedade Brasileira de Pediatria, Ministério da Saúde, UpToDate e Lexidrug. Quando as fontes discordam, seguimos a SBP e mostramos a diferença.
Referências
- Sociedade Brasileira de Pediatria. Documento Científico nº 206: Abordagem da Febre Aguda em Pediatria e Reflexões sobre a febre nas arboviroses. Departamentos Científicos de Pediatria Ambulatorial e de Infectologia, 15 de maio de 2025. sbp.com.br ↗
- Wallace SS. Fever in infants and children: Pathophysiology and management. UpToDate, tópico atualizado em 9 de agosto de 2026. uptodate.com ↗
- Ministério da Saúde. Dengue: diagnóstico e manejo clínico, adulto e criança. 6ª edição. Brasília, 2024. portaldeboaspraticas.iff.fiocruz.br ↗
- The febrile infant (29 to 90 days of age): Outpatient evaluation. UpToDate, tópico atualizado em 1º de julho de 2025. uptodate.com ↗
- Pantell RH, Roberts KB, Adams WG, et al. Evaluation and Management of Well-Appearing Febrile Infants 8 to 60 Days Old. Pediatrics. 2021;148(2):e2021052228. doi.org ↗
- Ministério da Saúde. Caderneta da Criança: Passaporte da Cidadania. 7ª edição. Brasília, 2024. Sinais de perigo, p. 23. bvsms.saude.gov.br ↗
- The febrile neonate (28 days of age or younger): Outpatient evaluation. UpToDate, tópico atualizado em 24 de julho de 2026. uptodate.com ↗
- Fever without a source in children 3 to 36 months of age: Evaluation and management. UpToDate, tópico atualizado em 5 de janeiro de 2026. uptodate.com ↗
- Lexidrug. Acetaminophen (paracetamol): Pediatric drug information. Consultado em 4 de outubro de 2026. uptodate.com ↗
- Lexidrug. Dipyrone (metamizole): International drug information (concise). Consultado em 4 de outubro de 2026. uptodate.com ↗
- Lexidrug. Ibuprofen: Pediatric drug information. Consultado em 4 de outubro de 2026. uptodate.com ↗
- Nunes ML. Febrile Seizure. Managing in Real-World Practice. Jornal de Pediatria (Sociedade Brasileira de Pediatria), v. 102, n. 1, 2026. static.elsevier.es ↗
Questões comentadas sobre o tema
Material de apoio para profissionais de saúde. Não substitui o julgamento clínico, a bula nem as diretrizes originais.