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Febre em pediatria: avaliação, FSSL e antitérmicos

O que mudou com o Documento Científico da SBP de maio de 2025, onde ele diverge da AAP 2021 e do UpToDate, e uma calculadora de dose pelo peso.

Equipe editorial Pediatrando Atualizado em 9 min de leitura
SBPUpToDateMinistério da SaúdeAAPLexidrug

Pontos-chave

  • Febre: axilar ≥ 37,5 °C (corresponde a 38 °C oral ou retal). A intensidade não prediz infecção bacteriana grave, exceto no menor de 3 meses com leucocitose ou PCR elevada.1
  • Antitérmico pelo desconforto, não pelo número, em monoterapia: paracetamol, dipirona ou ibuprofeno; sem alternar nem associar.1,2
  • FSSL: menor de 30 dias é internação com investigação completa e antibiótico empírico; de 1 a 3 meses, critérios de Rochester; de 3 a 36 meses, a conduta depende da vacinação e da temperatura.1
  • Suspeita de dengue: sem AINE; paracetamol (máx. 60 mg/kg/dia) ou dipirona.1,3
Neste artigo
  1. Definição e medida da temperatura
  2. Avaliação da criança febril: sinais de gravidade
  3. Febre sem sinais localizatórios (FSSL) por idade
  4. Antitérmicos: indicação, doses e segurança
  5. Alternância, métodos físicos e uso preventivo
  6. Febre nas arboviroses: dengue
  7. Como o tema cai na prova
  8. Perguntas frequentes
  9. Referências

1Definição e medida da temperatura

A SBP passou a adotar, no Documento Científico de maio de 2025, temperatura axilar ≥ 37,5 °C, equivalente a 38 °C oral ou retal. A temperatura retal continua sendo o padrão-ouro da temperatura central, mas é invasiva; para casa e escola, recomenda-se a axilar com termômetro digital.1

SituaçãoRecomendação da SBP (2025)
Menores de 4 semanas, qualquer ambienteAxilar com termômetro digital (evidência III, recomendação B)
Menores de 1 ano, qualquer ambienteSó termômetro digital
Maiores de 4 semanas, hospital ou ambulatórioAxilar digital ou infravermelho (timpânico, com ou sem contato), por profissional treinado

Adaptado da diretriz italiana de febre, citada pela SBP.1

Febre ou hipertermia. Na febre, há extremidades frias, ausência de sudorese, sensação de frio, tremores, taquicardia e taquipneia. Na hipertermia (excesso de roupa, ambiente quente, exercício), há vasodilatação periférica, extremidades quentes e sudorese; antitérmico não age.1

As fontes divergem: Local de medida e ponto de corte

A AAP e o UpToDate definem febre no lactente pequeno pela temperatura retal ≥ 38 °C, e é com ela que foram feitos os estudos de risco de infecção bacteriana grave.4,5 O NICE prefere a axilar eletrônica abaixo de 4 semanas, como a SBP.2 A Caderneta da Criança (Ministério da Saúde, 7ª ed., 2024) usa axilar ≥ 37,5 °C como sinal de perigo no menor de 2 meses, como a SBP.6 O termômetro de testa, segundo o UpToDate, não deve orientar decisão clínica.2

2Avaliação da criança febril: sinais de gravidade

A altura da febre não tem valor prognóstico nem etiológico, e a resposta ao antitérmico não separa vírus de bactéria.1,2 A avaliação se apoia no estado geral e nos sinais vitais, classificados pelo semáforo de risco (verde, amarelo, vermelho):1

ParâmetroSinal de alerta
Frequência cardíaca≥ 160 bpm (< 12 meses) · ≥ 150 bpm (12–24 meses) · ≥ 140 bpm (2–5 anos)
Frequência respiratória> 50 irpm (6–12 meses) · > 40 irpm (> 12 meses)
Saturação de O₂≤ 95%
Enchimento capilar> 3 segundos
HidrataçãoMucosas secas, turgor diminuído
AtividadePouca resposta a estímulos, sonolência, gemência

Valores do Documento Científico da SBP de 2025.1

Febre por 5 dias ou mais se associou a mais infecção bacteriana grave (8,4% contra 5,7%), em geral pneumonia ou ITU. Febre que persiste, sobe de patamar ou ganha sintoma localizado pede reavaliação.2

As fontes divergem: Quando reavaliar a febre que persiste

No protocolo de FSSL, a SBP pede reavaliação diária e define FSSL como febre de até 7 dias.1 O UpToDate sugere reavaliar a febre com desconforto que dura mais de 2 a 3 dias e considerar diagnósticos alternativos depois de 4 a 5 dias, ou antes, se a febre subir de patamar ou surgir foco novo.2

3Febre sem sinais localizatórios (FSSL) por idade

FSSL é a febre com menos de 7 dias de duração em que a história e o exame físico não revelam a causa. A maioria é infecção viral autolimitada ou o pródromo de doença benigna; poucas são infecção bacteriana grave.1 A SBP reproduz o protocolo do HU-USP (Tratado de Pediatria, 2017), baseado em Baraff e Rochester, que reduziu o uso empírico de antibiótico sem deixar de identificar as infecções graves:1

Idade (bom estado geral)Conduta pela SBP (protocolo HU-USP)
Comprometimento do estado geral, qualquer idadeInternação, hemocultura, urina e urocultura, LCR, radiografia de tórax e antibiótico empírico
< 30 diasInternação, pesquisa de vírus respiratório, hemograma, hemocultura, urina e urocultura, LCR, radiografia de tórax e antibiótico empírico
1 a 3 mesesCritérios de Rochester com pesquisa viral, hemograma e urina. Baixo risco: reavaliação diária obrigatória. Alto risco: internação, culturas, LCR, radiografia e antibiótico empírico
3 a 36 meses, vacinação completaPesquisa viral, urina e urocultura; reavaliação diária
3 a 36 meses, vacinação incompleta, TAX ≤ 39 °CReavaliação diária; considerar urina e urocultura
3 a 36 meses, vacinação incompleta, TAX > 39 °CUrina e urocultura. Leucocitúria > 5 × 10⁵/mL: tratar ITU. Sem leucocitúria: hemograma; leucócitos ≥ 20.000 ou neutrófilos ≥ 10.000/mm³ → hemocultura e radiografia; radiografia normal (risco de bacteremia oculta): ceftriaxona 50 mg/kg IM 1×/dia, com reavaliação diária até o resultado das culturas

Tabela 1 do Documento Científico da SBP de 2025.1

As fontes divergem: O fluxograma da SBP e um ponto de leitura

No fluxograma original, os dois ramos da vacinação incompleta aparecem como "Tax ≤ 39 °C"; pela lógica do protocolo, o segundo ramo é o da temperatura acima de 39 °C, e é assim que ele está na tabela acima.1

As fontes divergem: SBP (Rochester e Baraff) e AAP 2021 (PECARN)

Para o lactente de 8 a 60 dias em bom estado, a AAP 2021 e o UpToDate estratificam por idade e marcadores inflamatórios, com procalcitonina: de 8 a 21 dias, investigação completa de sepse; de 22 a 28 dias com marcadores normais, o LCR pode ser dispensado por decisão compartilhada; de 29 a 60 dias, regra do PECARN; de 61 a 90 dias, só urina colhida por sondagem.4,5,7 Entre 3 e 36 meses, o UpToDate define FSSL a partir de 39 °C e, no vacinado, dispensa exames de sangue; no não vacinado, indica hemocultura e ceftriaxona a partir de procalcitonina ≥ 0,5 ng/mL, PCR > 20 mg/L, leucócitos ≥ 15.000 ou neutrófilos ≥ 10.000/mm³, contra o corte de 20.000 leucócitos do protocolo da SBP.8

4Antitérmicos: indicação, doses e segurança

Não existe valor "mágico" de temperatura para medicar. O antitérmico é indicado quando há desconforto evidente (choro intenso, irritabilidade, redução da atividade e do apetite, distúrbio do sono). No Brasil, a SBP recomenda paracetamol, dipirona e ibuprofeno; o AAS é contraindicado (síndrome de Reye).1

A partir dePor doseMáximo diário
ParacetamolNeonatos e > 3 kg10–15 mg/kg, a cada 4–6 h50–75 mg/kg/dia
Dipirona3 meses e > 5 kg10–16 mg/kg, a cada 6–8 h40–64 mg/kg/dia (conferir a bula)
Ibuprofeno6 meses e > 5 kg5–10 mg/kg, a cada 6–8 h40 mg/kg/dia

Quadro 1 do Documento Científico da SBP de 2025.1 No menor de 1 mês, o paracetamol é o único antitérmico recomendado, com dose ajustada à idade gestacional.

Calculadora rápida

Dose de antitérmico pelo peso

Faixas do Quadro 1 da SBP (2025). Confira sempre a concentração do produto.

Digite o peso para ver a faixa de dose em mg e em mL.

Ferramenta de apoio para profissionais. Não substitui a prescrição nem a bula do produto. No app, a dose sai na receita, com a apresentação escolhida. Abrir o Pediatrando →

  • Paracetamol: dose tóxica de 120 mg/kg na criança. Somar todas as fontes (antigripais, associações). O Lexidrug limita a 5 doses em 24 h e a 4 g/dia, e não recomenda dose de ataque na rotina.1,2,9
  • Dipirona: início em 30–60 min, duração de 4–6 h. A hipotensão é o efeito adverso mais frequente na rotina, em geral por dose acima da faixa; agranulocitose é excepcional. No produto de referência, 1 gota = 25 mg: o hábito de "1 gota por quilo" equivale a 25 mg/kg, uma superdose.1
  • Ibuprofeno: 5–10 mg/kg como antitérmico e analgésico; 15–20 mg/kg para efeito anti-inflamatório. Evitar na doença renal crônica e na suspeita de dengue, com cautela na asma induzida por AINE;1 usar só na criança bem hidratada.2
  • Doença crônica: na hepatopatia, priorizar paracetamol em dose ajustada; na insuficiência renal crônica, evitar ibuprofeno.1
As fontes divergem: Doses e idade mínima: SBP, Lexidrug e bula

Dipirona: a SBP indica 10–16 mg/kg/dose no Quadro 1 de 2025, e o mesmo documento usa 10 mg/kg na dengue.1 O Lexidrug não fixa mg/kg para dipirona (o fármaco não existe nos EUA) e remete à bula de cada produto, a partir dos 3 meses.10 Ibuprofeno: o Lexidrug aceita a partir de 3 meses e 5 kg, com dados limitados abaixo de 6 meses, e teto de 600 mg/dose; a SBP mantém 6 meses.1,11 Paracetamol: AAP e UpToDate sugerem não usar antes dos 3 meses sem avaliação médica, porque a febre pode ser o único sinal de infecção grave.2

Gotejadores. Em estudo brasileiro com 575 cuidadores, 43% das crianças recebiam subdose e 8% superdose; os gotejadores de genéricos e similares liberam gotas de volume variável, quase sempre menor que o do produto de referência. Prescreva em mL ou confira o número de gotas por mL da marca.1

5Alternância, métodos físicos e uso preventivo

  • Alternar ou associar antitérmicos: não recomendado. Todos agem pela mesma via (inibição da COX e da PGE2 hipotalâmica); a prática não tem respaldo e aumenta o risco de intoxicação.1 O UpToDate também sugere não combinar nem alternar (grau 2B).2
  • Métodos físicos: não recomendados, exceto na hipertermia (temperatura central ≥ 40 °C com alteração do sistema nervoso central). Têm efeito rápido e curto e aumentam calafrios e irritabilidade.1 Se usados como adjuvante, água morna (cerca de 30 °C) e nunca álcool.2
  • Convulsão febril (2–5% das crianças de 6 meses a 5 anos): antitérmico profilático não reduz a recorrência (metanálise com 540 crianças; OR 0,9, IC 95% 0,57–1,43) nem interrompe a crise; serve só ao conforto. Crise simples não exige EEG, exames de sangue nem neuroimagem.1,12
  • Antes de vacinas: não usar paracetamol profilático de rotina, que pode reduzir a imunogenicidade, sobretudo nas primeiras doses.1
As fontes divergem: Alternância: NICE e prática real

O NICE admite alternar apenas se o desconforto persistir ou voltar antes da próxima dose, e o UpToDate cita especialistas que trocam de fármaco se não houver melhora em 3–4 horas.2 A SBP mantém a recomendação contra a alternância e lembra que, no Brasil, 26,7% dos cuidadores alternavam, com 70% das doses abaixo da mínima recomendada.1

6Febre nas arboviroses: dengue

Na dengue, a queda da febre (do 3º ao 7º dia) pode marcar o início da fase crítica, com extravasamento plasmático: dor abdominal intensa, vômitos persistentes, letargia, sangramento de mucosas, hipotensão postural, hepatomegalia > 2 cm e hematócrito em ascensão.1

  • Paracetamol: 10–15 mg/kg, intervalo mínimo de 4–6 h, máximo de 60 mg/kg/dia.1
  • Dipirona: 10 mg/kg a cada 6 h (conferir a bula por peso e idade).1
  • AINE (ibuprofeno) e AAS: contraindicados, pelo risco de sangramento e de lesão renal no extravasamento.1,3
  • Hidratação oral precoce e abundante é o pilar do tratamento.1
As fontes divergem: Antitérmico na dengue: MS e OMS

O Ministério da Saúde admite dipirona e paracetamol; a OPAS e a OMS recomendam só o paracetamol.3

7Como o tema cai na prova

Perguntas frequentes

Qual a definição de febre pela SBP em 2025?

Temperatura axilar igual ou superior a 37,5 °C, que corresponde a 38 °C pela medida oral ou retal, segundo o Documento Científico nº 206 da SBP, de maio de 2025.

Qual a dose de dipirona por kg em criança?

Pela SBP (2025), 10 a 16 mg/kg por dose, a cada 6 a 8 horas, a partir de 3 meses e 5 kg, com máximo de 40 a 64 mg/kg/dia (conferir a bula). No produto de referência em gotas, 1 gota tem 25 mg, então "1 gota por quilo" é superdose.

Qual a dose de paracetamol em criança?

10 a 15 mg/kg por dose, a cada 4 a 6 horas, com máximo de 75 mg/kg/dia pela SBP (até 5 doses e 4 g/dia pelo Lexidrug). Na suspeita de dengue, o máximo diário cai para 60 mg/kg.

Ibuprofeno pode ser usado a partir de que idade?

A partir de 6 meses e 5 kg, pela SBP. O Lexidrug admite a partir de 3 meses e 5 kg, com dados limitados abaixo dos 6 meses.

Pode alternar antitérmicos?

Não. A SBP não recomenda alternar nem associar antitérmicos, e o UpToDate sugere o mesmo (grau 2B): não há benefício clínico demonstrado e o risco de erro de dose aumenta.

Como conduzir febre sem sinais localizatórios em menor de 30 dias?

Pela SBP, internação, pesquisa de vírus respiratório, hemograma, hemocultura, urina e urocultura, LCR, radiografia de tórax e antibiótico empírico, mesmo em bom estado geral. A AAP 2021 estratifica por idade (8–21 e 22–28 dias) e por marcadores inflamatórios.

Equipe editorial Pediatrando

Conteúdo conferido em 4 de outubro de 2026 nas fontes abaixo, na ordem de prioridade: Sociedade Brasileira de Pediatria, Ministério da Saúde, UpToDate e Lexidrug. Quando as fontes discordam, seguimos a SBP e mostramos a diferença.

Referências

  1. Sociedade Brasileira de Pediatria. Documento Científico nº 206: Abordagem da Febre Aguda em Pediatria e Reflexões sobre a febre nas arboviroses. Departamentos Científicos de Pediatria Ambulatorial e de Infectologia, 15 de maio de 2025. sbp.com.br ↗
  2. Wallace SS. Fever in infants and children: Pathophysiology and management. UpToDate, tópico atualizado em 9 de agosto de 2026. uptodate.com ↗
  3. Ministério da Saúde. Dengue: diagnóstico e manejo clínico, adulto e criança. 6ª edição. Brasília, 2024. portaldeboaspraticas.iff.fiocruz.br ↗
  4. The febrile infant (29 to 90 days of age): Outpatient evaluation. UpToDate, tópico atualizado em 1º de julho de 2025. uptodate.com ↗
  5. Pantell RH, Roberts KB, Adams WG, et al. Evaluation and Management of Well-Appearing Febrile Infants 8 to 60 Days Old. Pediatrics. 2021;148(2):e2021052228. doi.org ↗
  6. Ministério da Saúde. Caderneta da Criança: Passaporte da Cidadania. 7ª edição. Brasília, 2024. Sinais de perigo, p. 23. bvsms.saude.gov.br ↗
  7. The febrile neonate (28 days of age or younger): Outpatient evaluation. UpToDate, tópico atualizado em 24 de julho de 2026. uptodate.com ↗
  8. Fever without a source in children 3 to 36 months of age: Evaluation and management. UpToDate, tópico atualizado em 5 de janeiro de 2026. uptodate.com ↗
  9. Lexidrug. Acetaminophen (paracetamol): Pediatric drug information. Consultado em 4 de outubro de 2026. uptodate.com ↗
  10. Lexidrug. Dipyrone (metamizole): International drug information (concise). Consultado em 4 de outubro de 2026. uptodate.com ↗
  11. Lexidrug. Ibuprofen: Pediatric drug information. Consultado em 4 de outubro de 2026. uptodate.com ↗
  12. Nunes ML. Febrile Seizure. Managing in Real-World Practice. Jornal de Pediatria (Sociedade Brasileira de Pediatria), v. 102, n. 1, 2026. static.elsevier.es ↗

Questões comentadas sobre o tema

Material de apoio para profissionais de saúde. Não substitui o julgamento clínico, a bula nem as diretrizes originais.

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