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Queimadura na criança: reposição volêmica pelo ATLS 11 (2025)

O que mudou na 11ª edição do ATLS, a superfície queimada pela tabela de Lund e Browder, analgesia, transferência e onde Ministério da Saúde e UpToDate ainda divergem.

Equipe editorial Pediatrando Atualizado em 10 min de leitura
ATLS 11UpToDateMinistério da SaúdeOMS

Pontos-chave

  • Comece já, antes de calcular a SCQ: Ringer lactato aquecido a 125 mL/h até 5 anos, 250 mL/h dos 6 aos 12 e 500 mL/h a partir dos 13, desde o pré-hospitalar.1
  • Fórmula do ATLS 11: 3 mL/kg/%SCQ abaixo de 13 anos, 2 mL a partir dos 13 e 4 mL na elétrica, nas primeiras 16 h, sem dividir em intervalos.1
  • Até 30 kg, soma-se o soro de manutenção com glicose 5%, fora da conta. Meta de diurese: 1 mL/kg/h abaixo de 13 anos e 0,5 mL/kg/h a partir dos 13; ajuste de 10 a 30% a cada hora.1
  • Bólus só com hipotensão ou outro sinal de hipovolemia. Na SCQ, conte só 2º grau ou mais, pela tabela de Lund e Browder.1,2
Neste artigo
  1. O que mudou no ATLS 11 (2025)
  2. Calculadora de reposição pelo ATLS 11
  3. Superfície corporal queimada: Lund e Browder
  4. Primeiros minutos e ABCDE
  5. ATLS 11, Ministério da Saúde e UpToDate
  6. Gravidade e transferência para centro de queimados
  7. Analgesia, ferida e medidas gerais
  8. Quando suspeitar de maus-tratos
  9. Pegadinhas de prova
  10. Como o tema cai na prova
  11. Perguntas frequentes
  12. Referências

1O que mudou no ATLS 11 (2025)

Até a 10ª edição (2018), o adulto recebia 2 mL/kg/%SCQ em 24 h, com metade nas primeiras 8 h e a outra metade nas 16 h seguintes. A 11ª edição, de 2025, mudou a lógica: o volume da fórmula corre em 16 h, sem divisão em intervalos, e o ajuste é feito de hora em hora pela diurese.1

QueimaduraIdade e pesoFórmula em 16 hMeta de diurese
Térmica ou química≥ 13 anos (e adultos)RL 2 mL × kg × %SCQ0,5 mL/kg/h (30–50 mL/h no adulto)
Térmica ou química< 13 anosRL 3 mL × kg × %SCQ1 mL/kg/h
Térmica ou químicaBebês e crianças ≤ 30 kgRL 3 mL × kg × %SCQ + RL com glicose 5% em manutenção1 mL/kg/h
ElétricaTodas as idadesRL 4 mL × kg × %SCQ (< 13 anos: + RL com glicose 5% em manutenção)1 a 1,5 mL/kg/h até a urina clarear

Tabela 1 do editorial de Coltro sobre a 11ª edição do ATLS (2025). RL: Ringer lactato; SCQ: superfície corporal queimada.1,3

  1. Taxa imediata pela idade≤ 5 anos: 125 mL/h; 6 a 12 anos: 250 mL/h; ≥ 13 anos: 500 mL/h de RL, por acesso periférico, iniciada no pré-hospitalar ou na avaliação primária, até haver peso e SCQ.1
  2. Indicação da fórmulaQueimaduras de espessura parcial e total que somam 20% ou mais da superfície corporal.1
  3. Cristaloide aquecidoIsotônico, de preferência Ringer lactato, aquecido. Sonda vesical de demora em todo paciente em reposição.1
  4. Ajuste horárioDiurese abaixo da meta: aumentar a taxa em 10 a 30%; acima da meta: reduzir em 10 a 30%.1
  5. Depois das 16 hA fórmula não prevê volume para depois das 16 h: daí em diante, a redução segue a diurese. Considere fatores que mudam a necessidade e a diurese: lesão inalatória, insuficiência renal, diuréticos e álcool.1

2Calculadora de reposição pelo ATLS 11

Calculadora rápida

Reposição volêmica na queimadura

ATLS 11ª edição (2025). Conte só queimaduras de 2º grau ou mais.

Digite peso, idade e superfície queimada para ver a taxa inicial, o volume das 16 h e a meta de diurese.

Ferramenta de apoio para profissionais: a fórmula é ponto de partida, quem manda é a diurese, reavaliada de hora em hora. No app, a Área Vermelha calcula a SCQ por Lund e Browder no boneco. Abrir o Pediatrando →

Exemplo: criança de 4 anos, 16 kg, 25% de SCQ por escaldadura. Taxa imediata de 125 mL/h. Fórmula: 3 × 16 × 25 = 1.200 mL em 16 h (75 mL/h). Manutenção 4:2:1 com glicose: 40 + 12 = 52 mL/h. Meta de diurese: 16 mL/h. O relógio começa na hora da queimadura, e o que já correu antes da chegada é descontado.1,2

3Superfície corporal queimada: Lund e Browder

Entram na conta só as queimaduras de 2º grau ou mais profundas: o eritema do 1º grau não conta. Na criança, prefira a tabela de Lund e Browder: a regra dos nove do adulto erra porque a cabeça da criança é proporcionalmente maior e os membros inferiores, menores.2

Região< 1 ano1–4 anos5–9 anos10–14 anos15 anos
Cabeça19%17%13%11%9%
Cada coxa5,5%6,5%8%8,5%9%
Cada perna5%5%5,5%6%6,5%

Fixos em todas as idades: pescoço 2%, tronco anterior 13%, tronco posterior 13%, cada nádega 2,5%, genitália 1%, cada braço 4%, cada antebraço 3%, cada mão 2,5%, cada pé 3,5%. Mesmos valores da calculadora de queimaduras da Área Vermelha do app.2

  • Palma da mão do paciente com os dedos ≈ 1% da superfície corporal; só a palma, ≈ 0,5%. Útil nas queimaduras salpicadas, mas pouco preciso no lactente.2,4
  • A SCQ costuma ser superestimada na criança: num estudo com 201 crianças encaminhadas, quase metade teve a área superestimada em 5 pontos ou mais, sobretudo na faixa de 10 a 20%, o que leva a excesso de volume.2
  • Profundidade: 1º grau é eritema seco e doloroso; 2º superficial faz bolha de fundo rosado, úmido e muito doloroso; 2º profundo, fundo esbranquiçado e menos doloroso; 3º grau é branco ou escuro, coriáceo e indolor. Reavalie nas primeiras 72 h.2,4

4Primeiros minutos e ABCDE

  1. Parar a queimadura e resfriarRetirar roupas e adornos; roupa aderida fica. Resfriar com água corrente (acima de 8 °C) por 20 minutos nas queimaduras de até 10% da SCQ; nas maiores, não resfriar com água corrente, pelo risco de hipotermia. Nunca gelo.2,5
  2. Via aéreaSinais de lesão inalatória: queimadura de face ou pescoço, vibrissas e sobrancelhas chamuscadas, fuligem em nariz e orofaringe, escarro carbonáceo, rouquidão, estridor, sialorreia, desconforto respiratório. Com sinais de via aérea superior, intubação em sequência rápida precoce, antes de o edema distorcer a anatomia, preparada como via aérea difícil.2,4
  3. Indicações de intubação (MS)Glasgow abaixo de 8, PaO₂ abaixo de 60, PaCO₂ acima de 55 mmHg, SpO₂ abaixo de 90% ou edema importante de face e orofaringe.4
  4. RespiraçãoO₂ a 100% na avaliação primária. Suspeita de monóxido de carbono: O₂ a 100% por máscara com reservatório (por 3 h, segundo o MS) e carboxi-hemoglobina; a oximetria de pulso lê normal e engana. Pense também em cianeto no incêndio fechado com acidose, alteração de consciência ou instabilidade.2,4
  5. CirculaçãoDois acessos periféricos calibrosos, de preferência em pele íntegra, mas pode ser através da queimadura; intraóssea se demorar. Choque logo na chegada raramente é da queimadura: procure trauma associado.2,4
  6. Exposição e temperaturaAmbiente aquecido, aquecimento ativo e temperatura central seriada. Cobrir com lençol limpo e seco.2

5ATLS 11, Ministério da Saúde e UpToDate

Fórmula e metas nas três fontes

ATLS 11 (2025)
  • 3 mL/kg/%SCQ abaixo de 13 anos; 2 mL a partir dos 13; 4 mL na elétrica
  • Tudo em 16 h, sem dividir
  • Glicose de manutenção até 30 kg
  • Diurese 1 mL/kg/h abaixo de 13 anos
  • Taxa imediata pela idade antes da SCQ
Ministério da Saúde (2012)
  • Parkland 2 a 4 mL/kg/%SCQ, criança e adulto
  • 50% nas primeiras 8 h e 50% nas 16 h seguintes
  • Observar a glicemia na criança
  • Diurese 0,5 a 1 mL/kg/h; elétrica cerca de 1,5 mL/kg/h
  • Sonda vesical acima de 10% de SCQ na criança
UpToDate (abril de 2026)
  • Parkland modificada: 3 mL/kg/%SCQ
  • Metade nas primeiras 8 h, metade nas 16 h seguintes
  • Mais manutenção; RL com glicose 5% abaixo de 20 kg
  • Diurese 1 a 2 mL/kg/h abaixo de 30 kg; 0,5 a 1 mL/kg/h acima
  • Glicemia a cada 4 a 6 h

O texto segue o ATLS 11, fonte principal; as outras duas aparecem para comparação.1,2,4

As fontes divergem: A partir de quantos % repor na criança?

O ATLS 11 indica a fórmula para queimaduras de espessura parcial e total a partir de 20% da superfície corporal.1 Na criança, a cartilha do Ministério da Saúde considera grave a queimadura acima de 10% e pede sonda vesical a partir daí,4 e o UpToDate lembra que a resposta sistêmica aparece a partir de cerca de 15% nas crianças pequenas.2 Por isso muitos serviços pediátricos começam a reposição venosa a partir de 10%, como faz a calculadora da Área Vermelha do app: abaixo disso, manutenção e via oral.

As fontes divergem: Morfina ou fentanil na emergência?

O Ministério da Saúde usa dipirona 15 a 25 mg/kg EV ou morfina 0,05 a 0,1 mg/kg EV na criança.4 O UpToDate prefere o fentanil na emergência, pelo início rápido, pela via intranasal e por baixar menos a pressão, e associa analgésicos não opioides depois da estabilização.2 Os dois concordam que a via intramuscular deve ser evitada: com a perfusão alterada, a absorção é imprevisível.2

6Gravidade e transferência para centro de queimados

Quem é grave e quem vai para o centro de queimados

Queimadura grave (MS)
  • SCQ acima de 10% na criança (acima de 20% no adulto)
  • Idade menor que 3 anos
  • Lesão inalatória
  • Politrauma ou doença prévia
  • Queimadura química ou trauma elétrico
  • Áreas nobres: olhos, orelhas, face, pescoço, mãos, pés, região inguinal, grandes articulações e genitais
  • Violência, maus-tratos ou tentativa de suicídio
Transferência (ABA, pelo UpToDate)
  • Espessura parcial ≥ 10% da SCQ
  • Qualquer 2º grau profundo ou 3º grau em face, mãos, pés, genitais, períneo ou articulações
  • Qualquer 3º grau
  • Elétrica de alta voltagem (≥ 1.000 V) ou raio; química; inalatória
  • Comorbidade, trauma associado, necessidade social ou de reabilitação, dor mal controlada
  • Serviço sem estrutura pediátrica ou sem seguimento ambulatorial

Cartilha do Ministério da Saúde e critérios da American Burn Association resumidos pelo UpToDate.2,4

  • Transporte: intubar antes quem tem sinais de lesão inalatória, garantir dois acessos fixados e prevenir hipotermia.2
  • Curativo para transferir: gaze seca não aderente, sem pomada nem creme: o centro de queimados vai remover tudo para avaliar.6

7Analgesia, ferida e medidas gerais

  • Analgesia EV desde o início, com opioide como base na queimadura moderada ou grave; sedação com cetamina para desbridamento e curativo.2,4
  • Limpeza: água e clorexidina degermante a 2% ou sabão neutro. Curativo oclusivo em quatro camadas com sulfadiazina de prata 1%, segundo o MS; face e períneo, curativo exposto.4
  • Sulfadiazina de prata pode retardar a epitelização e aumentar as trocas na queimadura superficial; curativos com prata ou hidrocoloide são alternativas.6
  • Antibiótico sistêmico profilático não é indicado; corticoide também não.4,6
  • Tétano: atualizar a vacina; imunoglobulina se o esquema estiver incompleto.4,6
  • Escarotomia na queimadura circunferencial de tórax, abdome ou membro com prejuízo ventilatório, de perfusão ou compartimental.2,4

8Quando suspeitar de maus-tratos

Desconfie quando a história não explica a lesão, sobretudo abaixo de 5 anos: escaldadura por imersão em luva ou meia, com borda nítida ("linha da maré"), em períneo e membros inferiores, muitas vezes ligada à punição no treino do toalete; queimadura com o formato de um objeto; lesões circulares pequenas de cigarro.2,6

Violência e maus-tratos classificam a queimadura como grave.4 Na suspeita, interne, acione a equipe de proteção e notifique ao Conselho Tutelar e pela ficha do Sinan.

9Pegadinhas de prova

  • ATLS 11: 16 h, sem dividir. A metade em 8 h é da Parkland antiga (e ainda aparece no MS e no UpToDate). Questões anteriores a 2025 costumam cobrar a Parkland.1,4
  • 3 mL/kg/%SCQ abaixo de 13 anos, 2 mL a partir dos 13, 4 mL na elétrica.1
  • Taxa antes da SCQ: 125, 250 ou 500 mL/h pela idade.1
  • 1º grau não entra no cálculo da SCQ, e a regra dos nove do adulto não serve para a criança: cabeça de 19% no lactente.2
  • Choque na primeira hora não é da queimadura: procure sangramento.2
  • Gelo e bólus de rotina estão errados; resfriamento com água corrente vale para queimaduras menores, não para as extensas.1,2

10Como o tema cai na prova

Perguntas frequentes

Qual a fórmula de reposição volêmica da queimadura na criança pelo ATLS 11?

Ringer lactato 3 mL/kg por %SCQ abaixo de 13 anos (2 mL a partir dos 13 e 4 mL na queimadura elétrica), nas primeiras 16 horas após a queimadura, sem dividir em intervalos. Até 30 kg, soma-se o soro de manutenção com glicose 5%.

O que mudou na reposição volêmica do queimado no ATLS 11?

O volume da fórmula passou a correr em 16 horas, sem a metade nas primeiras 8 horas; a reposição começa na hora, antes do cálculo da SCQ, com 125, 250 ou 500 mL/h conforme a idade; e o ajuste é feito a cada hora pela diurese, aumentando ou reduzindo a taxa em 10 a 30%.

Qual a meta de diurese na criança queimada?

Pelo ATLS 11, 1 mL/kg/h abaixo de 13 anos e 0,5 mL/kg/h a partir dos 13; na queimadura elétrica, 1 a 1,5 mL/kg/h até a urina ficar sem pigmento. O UpToDate usa 1 a 2 mL/kg/h abaixo de 30 kg.

Como calcular a superfície corporal queimada na criança?

Pela tabela de Lund e Browder, que corrige cabeça, coxas e pernas pela idade (cabeça de 19% abaixo de 1 ano), contando só queimaduras de 2º grau ou mais. Para lesões salpicadas, a palma da mão do paciente com os dedos vale cerca de 1%.

Quando transferir a criança queimada para um centro de queimados?

Pelos critérios da American Burn Association: espessura parcial em 10% ou mais da SCQ, qualquer 3º grau, 2º grau profundo ou 3º grau em face, mãos, pés, genitais, períneo ou articulações, queimadura elétrica de alta voltagem, química ou inalatória, trauma associado ou comorbidade, e quando o serviço não tem estrutura pediátrica.

Equipe editorial Pediatrando

Conteúdo conferido em 6 de outubro de 2026 nas fontes abaixo, na ordem de prioridade: Sociedade Brasileira de Pediatria, Ministério da Saúde, UpToDate e Lexidrug. Quando as fontes discordam, seguimos a SBP e mostramos a diferença.

Referências

  1. Coltro PS. Atualização na reposição volêmica do paciente queimado (editorial sobre a 11ª edição do ATLS). Revista Brasileira de Queimaduras, 2025;24(1):2-3. DOI 10.5935/2595-170X.20250002. doi.org ↗
  2. Moderate and severe thermal burns in children: Emergency management. UpToDate, tópico atualizado em 24 de abril de 2026. uptodate.com ↗
  3. American College of Surgeons. Advanced Trauma Life Support (ATLS) Student Course Manual. 11ª edição. Chicago: American College of Surgeons, 2025. facs.org ↗
  4. Ministério da Saúde. Cartilha para tratamento de emergência das queimaduras. Secretaria de Atenção à Saúde, com a Câmara Técnica de Queimaduras do Conselho Federal de Medicina. Brasília, 2012. bvsms.saude.gov.br ↗
  5. Organização Mundial da Saúde. Burns (nota descritiva), 13 de outubro de 2023. who.int ↗
  6. Treatment of minor thermal burns. UpToDate, tópico atualizado em 9 de junho de 2026. uptodate.com ↗

Questões comentadas sobre o tema

Material de apoio para profissionais de saúde. Não substitui o julgamento clínico, a bula nem as diretrizes originais.

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