Pontos-chave
- Regurgitação do lactente (Roma IV): ≥ 2 regurgitações/dia por ≥ 3 semanas, de 3 semanas a 12 meses, sem complicações, postura anômala nem dificuldade alimentar. Diagnóstico clínico, sem exames.1
- O "vomitador feliz" não recebe medicamento. IBP e bloqueador H2 não tratam choro, irritabilidade nem regurgitação no lactente saudável.1,2
- Suspeita de DRGE: medidas conservadoras (leite materno, evitar overfeeding, fórmula AR) → teste para APLV de 2 a 4 semanas → supressão ácida por 4 a 8 semanas, com reavaliação.1
- Sinais de alarme (vômito bilioso, em jato, início após 6 meses, hematêmese, febre, letargia, fontanela tensa, déficit de crescimento) apontam para outro diagnóstico.1,3
Neste artigo
- Definições e história natural
- Avaliação: DRGE possível e sinais de alarme
- Diagnóstico: clínico, e exames só para casos selecionados
- Conduta: do "vomitador feliz" à DRGE
- Supressão ácida e procinéticos: indicações e doses
- Quando internar, investigar com urgência ou encaminhar
- Pegadinhas de prova
- Como o tema cai na prova
- Perguntas frequentes
- Referências
1Definições e história natural
RGE é a passagem do conteúdo gástrico para o esôfago, com ou sem regurgitação ou vômito; é fisiológico, ocorre várias vezes ao dia, sobretudo após as mamadas, e raramente começa antes da primeira semana de vida ou depois dos 6 meses. DRGE é o refluxo que causa sintomas incômodos ou complicações.1,2
Regurgitação é a saída sem esforço do conteúdo gástrico; vômito é um reflexo central, com contração coordenada da musculatura abdominal e do diafragma.1,3
| Critério de Roma IV | Regurgitação do lactente (3 semanas a 12 meses) |
|---|---|
| Frequência | 2 ou mais regurgitações por dia |
| Duração | Pelo menos 3 semanas |
| Ausência de | Náuseas, hematêmese, aspiração, apneia, déficit de crescimento, dificuldade de alimentação ou deglutição, postura anômala |
Critérios reproduzidos pelo Guia Prático de Orientação nº 185 da SBP (2024).1
A regurgitação ocorre em 50% dos lactentes antes dos 2 meses e em 60% a 70% aos 3 ou 4 meses, e cai para 5% por volta de 1 ano; na maioria, a resolução é espontânea entre 12 e 24 meses. No lactente saudável, o conteúdo gástrico pode refluir 30 ou mais vezes por dia, e a regurgitação fisiológica é incomum depois dos 18 meses.1,3
No lactente, 53% a 56% dos episódios de refluxo são não ácidos ou fracamente ácidos, e o volume refluído parece se associar mais à irritabilidade que o pH; por isso a supressão ácida costuma falhar nessa idade.1,4
2Avaliação: DRGE possível e sinais de alarme
O primeiro passo é afastar sinais de alarme de outra doença. Depois, procurar sinais de DRGE: déficit de crescimento, irritabilidade intensa com relação temporal com o refluxo ou com postura (síndrome de Sandifer: arqueamento do dorso, torção do pescoço), recusa alimentar, hematêmese e sintomas respiratórios em lactente com condição predisponente à aspiração.1,3
| Grupo | Sinais de alarme que sugerem outro diagnóstico |
|---|---|
| Gerais | Febre, letargia, irritabilidade ou dor excessivas, falha importante de crescimento ou emagrecimento, disúria |
| Neurológicos | Fontanela tensa, macro ou microcefalia, aumento do perímetro cefálico, convulsões |
| Gastrintestinais | Vômitos persistentes com perda de peso, vômitos noturnos, vômitos biliosos, hematêmese ou melena, diarreia crônica, sangramento retal, distensão abdominal, início dos vômitos após os 6 meses ou persistência após os 12 meses |
Tabela 2 do Guia Prático da SBP (2024).1 O UpToDate acrescenta vômito sempre em jato (estenose de piloro, intussuscepção), constipação (Hirschsprung), tosse com as mamadas ou pneumonia de repetição (disfunção da deglutição, fístula), hepatoesplenomegalia, hipo ou hipertonia e infecções de repetição.3
Grupos de risco para DRGE mais grave e de difícil tratamento: atresia de esôfago, malformações esofagogástricas, doença neurológica, pneumopatias (fibrose cística, displasia broncopulmonar), prematuridade, obesidade, síndromes genéticas, hérnia hiatal ou diafragmática e quimioterapia.1
APLV como diferencial. DRGE, alergia alimentar e cólica podem se manifestar igualmente por choro e irritabilidade, e a alergia pode causar dismotilidade esofágica e refluxo. Sangue nas fezes, eczema e atopia familiar reforçam a suspeita; em séries citadas pelo UpToDate, até 40% dos lactentes com RGE problemático tinham intolerância à proteína alimentar.1,3
3Diagnóstico: clínico, e exames só para casos selecionados
O diagnóstico de RGE fisiológico e de DRGE é clínico; nenhum exame é padrão-ouro. No lactente, choro, irritabilidade e recusa alimentar são inespecíficos e não bastam para diagnosticar DRGE nem para prever a resposta ao tratamento.1
| Exame | Papel no lactente com refluxo |
|---|---|
| Ultrassonografia | Não recomendada para avaliar DRGE; não diferencia RGE de DRGE. Serve para estenose hipertrófica de piloro |
| Seriografia (RxEED) | Não diagnostica DRGE; afasta alterações anatômicas (vômito bilioso, dificuldade alimentar) |
| Cintilografia | O consenso sugere não utilizar |
| pHmetria / pH-impedanciometria | Correlacionar sintomas (apneia, tosse, dessaturação) com refluxo ácido e não ácido; avaliar a eficácia da supressão ácida |
| Endoscopia digestiva alta com biópsias | Esofagite, esofagite eosinofílica, estenose; falha das medidas empíricas |
Tabela 5 da SBP (2024) e recomendações da NASPGHAN/ESPGHAN de 2018.1,2,3
As fontes divergem: Teste terapêutico com IBP no lactente
A NASPGHAN/ESPGHAN 2018 sugere não usar o teste com IBP como diagnóstico de DRGE no lactente e reserva o teste de 4 a 8 semanas à criança maior com sintomas típicos.2 A SBP registra que o consenso de 2023 admite testes curtos também no lactente, por no máximo 8 semanas.1 O UpToDate faz um teste de cerca de 2 semanas depois da falha das medidas conservadoras e da dieta sem leite e, se houver melhora clara, mantém o IBP por 3 a 6 meses.3
4Conduta: do "vomitador feliz" à DRGE
No lactente com sintomas leves e sem sinal de alarme, o tratamento farmacológico é desnecessário: orientar, tranquilizar e acompanhar o crescimento. As expectativas dos pais pesam muito na decisão de tratar.1
- Medidas conservadorasManter o leite materno, evitar overfeeding (ajustar volume e frequência à idade e ao peso), fórmula AR ou espessante no lactente com fórmula, sono em posição supina, roupas folgadas, sem tabagismo passivo.1,2
- Teste para APLV (2 a 4 semanas)Dieta de exclusão para a mãe que amamenta, ou fórmula extensamente hidrolisada ou de aminoácidos. Melhorou: seguir o tratamento da APLV.1,2
- Bloqueador H2Se ainda houver sintomas de DRGE, o algoritmo da SBP passa pelo bloqueador H2 (famotidina) antes do IBP.1
- Gastropediatra ou supressão ácida por 4 a 8 semanasSem melhora, encaminhar para diagnósticos diferenciais e exames; se não for possível, considerar 4 a 8 semanas de supressão ácida e parar se os sintomas resolverem.1
Posição. Manter o lactente em pé no colo por 20 a 30 minutos após a mamada reduz a regurgitação. Para dormir, sempre supino em superfície plana: a elevação da cabeceira não tem efeito no lactente em supino, e os decúbitos lateral e prono aumentam o risco de síndrome da morte súbita do lactente. A posição semissentada (bebê-conforto) pode piorar o refluxo.1,2,3
Espessamento. Diminui a regurgitação visível, sem efeito comprovado sobre esofagite ou sintomas não regurgitativos. No Brasil não há espessante para leite materno, e o espessamento raramente se aplica ao lactente amamentado; a amamentação nunca deve ser suspensa para espessar o leite. Fórmula sem lactose ou de soja não é teste para APLV, porque a primeira mantém a proteína do leite de vaca intacta.1,2,3
As fontes divergem: Antiácidos, sucralfato e alginato no lactente
A SBP inclui antiácidos de contato e citoprotetores no algoritmo do lactente, com doses a partir de menos de 5 kg (antiácido com Mg ou Al, 2,5 mL 3 vezes ao dia; sucralfato em suspensão, 2,5 mL 4 vezes ao dia antes dos 6 anos).1 A NASPGHAN/ESPGHAN 2018 sugere não usar antiácidos nem alginatos no tratamento crônico,2 e o UpToDate desaconselha o uso crônico de antiácidos no lactente (toxicidade do alumínio, síndrome leite-álcali, raquitismo) e lembra que sucralfato e alginato não foram adequadamente estudados nessa idade.3
5Supressão ácida e procinéticos: indicações e doses
IBP está indicado na esofagite erosiva, na estenose péptica e no esôfago de Barrett, e em crianças que precisam de bloqueio ácido mais efetivo (doença respiratória crônica grave, doença neurológica). As diretrizes recomendam não usar bloqueador H2 nem IBP para choro ou irritabilidade nem para regurgitação visível no lactente saudável, e não usá-los em sintomas extraesofágicos isolados (tosse, sibilância, asma).1,2
| Fármaco | Dose pela SBP (2024) | Dose máxima |
|---|---|---|
| Famotidina (bloqueador H2) | 0,5 a 1 mg/kg/dia, de 12/12 h (se 1×/dia, à noite) | 40 mg |
| Omeprazol | 1 a 4 mg/kg/dia (tabela); 0,7 a 3,5 mg/kg/dia (texto) | 80 mg |
| Esomeprazol | Lactentes 10 mg; 20 mg até 20 kg; 40 mg acima de 20 kg | 40 mg |
| Lansoprazol | 2 mg/kg/dia em lactentes; 30 mg acima de 30 kg | 60 mg |
| Pantoprazol | 1 a 2 mg/kg/dia | 40 mg |
Tabela 8 do Guia Prático da SBP (2024).1 A NASPGHAN/ESPGHAN 2018 sugere famotidina 1 mg/kg/dia, máximo de 40 mg.1 IBP de 30 minutos antes da primeira refeição do dia.3,5
As fontes divergem: Dose de omeprazol: SBP e Lexidrug
A SBP traz 1 a 4 mg/kg/dia com teto de 80 mg na tabela e 0,7 a 3,5 mg/kg/dia no texto.1 O Lexidrug indica 0,7 a 1 mg/kg/dia, 1 vez ao dia ou dividido em 2 tomadas, cita relatos de até 3,5 mg/kg/dia e fixa o máximo em 40 mg/dia; propõe também dose fixa por peso (2,5 mg de 3 a < 5 kg; 5 mg de 5 a < 10 kg; 10 mg de 10 a < 20 kg; 20 mg a partir de 20 kg). Na DRGE não erosiva, sugere teste inicial de 2 a 4 semanas e, havendo melhora, 8 a 12 semanas no total.5
- Efeitos adversos dos IBP: cefaleia, diarreia, constipação e náuseas (2% a 7% cada); a hipocloridria se associa a pneumonia, gastroenterite, candidíase e enterocolite necrosante no pré-termo, e alguns estudos sugerem predisposição a alergia alimentar.1 Em coorte francesa de quase 1,3 milhão de lactentes, o IBP se associou a infecções bacterianas e virais (HR ajustado de 1,2 a 1,5).3
- Desmame: após uso prolongado, reduzir gradualmente (dias alternados, depois a cada 2, 3 e 4 dias), pelo risco de rebote ácido; a famotidina pode ser usada na transição.1
- Procinéticos: não há indicação de domperidona (prolongamento do QT, arritmias, efeitos extrapiramidais), metoclopramida nem bromoprida (efeitos extrapiramidais) na DRGE de lactentes e crianças.1,2
- Ranitidina: suspensa pela FDA em 2019 e, em seguida, no Brasil; a famotidina é hoje o bloqueador H2 em formulação líquida para pediatria.1
- Reavaliar sempre: verificar periodicamente a necessidade de supressão ácida prolongada e suspender assim que possível.1,2
6Quando internar, investigar com urgência ou encaminhar
- Vômito bilioso ou distensão abdominal: suspeitar de obstrução intestinal (atresia, má rotação); radiografia simples e estudo contrastado.3
- Vômito em jato persistente e progressivo nos primeiros meses: ultrassonografia para estenose hipertrófica de piloro.1,3
- BRUE (apneia, cianose ou mudança de cor): exige avaliação urgente.3
- Casos graves (aspiração, apneia, pneumonia): investigação e terapêutica individualizadas.1
- Encaminhar ao gastropediatra: falha do algoritmo, necessidade de supressão ácida prolongada, sintomas que não melhoram ou pioram até 18 a 24 meses.1,3
- Cirurgia (fundoplicatura) é rara antes de 1 ano; considerar em complicações com risco de vida (aspiração, apneia ou BRUE após tratamento otimizado), doença crônica com risco importante (fibrose cística, neuropatas) e dependência crônica de medicação.1,2,3
7Pegadinhas de prova
- Lactente que regurgita muito, com bom ganho de peso e exame normal: orientar e tranquilizar, manter o aleitamento exclusivo. Não é APLV, não é DRGE, não precisa de exame nem de IBP.1
- Hematêmese foi o único sinal que se correlacionou significativamente com esofagite histológica numa série de 113 lactentes.3
- IBP tem indicação na esofagite erosiva e na estenose péptica, não na cólica nem na constipação.1
- Domperidona não trata DRGE; posição prona e lateral não são tratamento de refluxo no lactente.1,2
- Início dos vômitos após os 6 meses ou persistência depois de 1 ano é sinal de alarme, não refluxo fisiológico.1,2
8Como o tema cai na prova
Perguntas frequentes
Quais são os critérios de Roma IV para regurgitação do lactente?
Lactente de 3 semanas a 12 meses com 2 ou mais regurgitações por dia por pelo menos 3 semanas, sem náuseas, hematêmese, aspiração, apneia, déficit de crescimento, dificuldade alimentar ou postura anômala, e sem outra condição que explique o quadro.
Quando usar IBP no lactente com refluxo?
Na DRGE com doença induzida pelo ácido documentada, como esofagite erosiva, ou em teste curto (até 8 semanas) após falha das medidas conservadoras e do teste para APLV. Não se usa IBP para choro, irritabilidade ou regurgitação no lactente saudável.
Qual a dose de omeprazol em lactente?
A SBP (2024) traz 1 a 4 mg/kg/dia, com máximo de 80 mg (0,7 a 3,5 mg/kg/dia no texto). O Lexidrug indica 0,7 a 1 mg/kg/dia, até 3,5 mg/kg/dia em relatos, com máximo de 40 mg/dia, 30 minutos antes da primeira refeição.
Quais os sinais de alarme no lactente que vomita?
Vômito bilioso, em jato persistente, noturno ou com perda de peso, início após 6 meses ou persistência após 12 meses, hematêmese, melena, sangramento retal, distensão abdominal, febre, letargia, fontanela tensa, macro ou microcefalia, convulsões e falha de crescimento.
Como diferenciar DRGE de APLV no lactente?
Os sintomas se sobrepõem. Sangue nas fezes, eczema e atopia familiar sugerem APLV. As diretrizes indicam teste de 2 a 4 semanas com dieta de exclusão materna ou fórmula extensamente hidrolisada ou de aminoácidos antes da supressão ácida.
Elevar a cabeceira do berço ajuda no refluxo do lactente?
Não. A NASPGHAN/ESPGHAN 2018 recomenda não usar terapia postural (elevação da cabeceira, decúbito lateral ou prono) no lactente dormindo. O sono é supino em superfície plana; a elevação da cabeceira e o decúbito lateral esquerdo ficam para a criança maior.
Conteúdo conferido em 4 de outubro de 2026 nas fontes abaixo, na ordem de prioridade: Sociedade Brasileira de Pediatria, Ministério da Saúde, UpToDate e Lexidrug. Quando as fontes discordam, seguimos a SBP e mostramos a diferença.
Referências
- Sociedade Brasileira de Pediatria. Guia Prático de Orientação nº 185: Doença do Refluxo Gastroesofágico. Departamento Científico de Gastroenterologia, 10 de dezembro de 2024. sbp.com.br ↗
- Rosen R, Vandenplas Y, Singendonk M, et al. Pediatric Gastroesophageal Reflux Clinical Practice Guidelines: Joint Recommendations of NASPGHAN and ESPGHAN. J Pediatr Gastroenterol Nutr. 2018;66(3):516-554. doi.org ↗
- Winter HS. Gastroesophageal reflux in infants. UpToDate, tópico atualizado em 18 de fevereiro de 2025 (revisão da literatura até setembro de 2026). uptodate.com ↗
- Vandenplas Y, Orsi M, Benninga M, et al. Infant gastroesophageal reflux disease management consensus. Acta Paediatr. 2024;113(3):403-410. doi.org ↗
- Lexidrug. Omeprazole: Pediatric drug information. Consultado em 4 de outubro de 2026. uptodate.com ↗
Questões comentadas sobre o tema
Material de apoio para profissionais de saúde. Não substitui o julgamento clínico, a bula nem as diretrizes originais.