Resposta rápida
- O autismo, ou transtorno do espectro autista (TEA), é uma forma diferente de o cérebro se desenvolver, que afeta a comunicação, a interação com as pessoas e o comportamento.1
- Os sinais costumam ficar claros entre 12 e 24 meses, mas alguns aparecem antes. Na dúvida, não espere: converse com o pediatra.1
- O estímulo pode começar antes do diagnóstico fechado. Quanto mais cedo, melhor para o desenvolvimento da criança.2
Neste artigo
1O que é o autismo
O autismo é uma condição do neurodesenvolvimento, isto é, do jeito como o cérebro se forma e amadurece. A criança tem dificuldade na comunicação e na interação social e mostra comportamentos repetitivos ou interesses muito restritos. Ele nasce de uma combinação de fatores genéticos e ambientais; não é culpa dos pais nem da criação.1
Chama-se espectro porque cada criança é diferente: umas falam muito, outras quase nada; umas precisam de pouca ajuda, outras de muita. Por isso se fala em níveis de suporte (1, 2 e 3), que podem mudar com o tempo.1
No Censo de 2022, o Brasil contou cerca de 2,2 milhões de pessoas com TEA, 1% da população; é mais frequente em meninos.1,2
2Sinais de alerta por idade
Nenhum sinal sozinho fecha diagnóstico. O que chama atenção é o conjunto, e quando ele persiste.2
- Primeiro anoOlha pouco nos olhos, sorri pouco de volta, presta mais atenção em objetos que em pessoas e não responde quando é chamado pelo nome.1,2
- De 12 a 18 mesesNão aponta para mostrar o que quer ou o que achou interessante, não imita gestos como dar tchau e pode ainda não falar as primeiras palavras.2
- De 18 a 24 mesesNão segue o seu olhar nem o seu dedo, não brinca de faz de conta, repete o que escuta sem conversar e se fixa numa parte do brinquedo, como girar as rodinhas.2
- Em qualquer idadeMovimentos repetidos (balançar as mãos, girar, andar na ponta dos pés), rotina muito rígida, incômodo forte com barulhos ou texturas e pouco interesse por outras crianças.1
Procure o pediatra logo, sem esperar a próxima consulta, se a criança:
- Perdeu habilidades que já tinha, como palavras, gestos ou brincadeiras.1
- Não responde ao nome e quase não olha nos olhos.1
- Com cerca de 1 ano e meio, ainda não aponta para mostrar coisas.2
- Não fala nenhuma palavra, ou parou de falar.2
- Você, a creche ou a escola sentem que algo está diferente, mesmo que o teste tenha dado baixo risco.3
3Suspeitei de autismo: o que fazer
- Converse com o pediatra ou na UBSA Unidade Básica de Saúde é a porta de entrada no SUS e acompanha o desenvolvimento em todas as consultas.2
- Faça o questionário M-CHATEle está na Caderneta da Criança e é respondido pelos pais, entre 16 e 30 meses. A SBP pede que seja aplicado em todas as crianças aos 18 e aos 24 meses. É uma triagem: resultado alterado não é diagnóstico.3,4
- Teste a audiçãoToda criança com suspeita deve ter a audição avaliada, porque a surdez também atrasa a fala.1
- Comece o estímulo jáSe faltar algum marco do desenvolvimento, a equipe deve iniciar estímulo na hora, sem esperar a confirmação do diagnóstico.2,3
As fontes divergem: Autismo só pode ser diagnosticado depois dos 3 anos?
Não. Em 2024, a SBP pediu ao Ministério da Saúde que revisse uma publicação nas redes sociais que falava em diagnóstico "a partir dos 3 anos", lembrando que o diagnóstico pode ser feito antes, se os sinais estiverem presentes.5 A Linha de Cuidado do Ministério, de 2025, não fixa idade mínima e diz que o cuidado começa pelos sinais, sem exigir diagnóstico fechado.2
4Como é o diagnóstico e quem faz
O diagnóstico é clínico: vem da conversa com a família, da observação da criança e de escalas próprias. Não existe exame de sangue ou de imagem que confirme o autismo.1,2
Quem avalia é uma equipe: pediatra, neuropediatra ou psiquiatra infantil, psicólogo, fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional. No SUS, isso pode ser feito na UBS ou em serviços especializados.2
Depois do diagnóstico, o médico pode pedir exames genéticos (como o do X-frágil) para procurar a causa e orientar a família sobre o risco em outros filhos. Ressonância e eletroencefalograma só entram em situações específicas, como convulsões ou perda de habilidades.1
5Intervenção precoce e terapias
O tratamento do autismo são as terapias: estimulação da comunicação e da interação, fonoaudiologia, terapia ocupacional, abordagens comportamentais e orientação aos pais. Revisões de estudos mostram benefício em vários modelos, sem um que seja superior a todos; a escolha é feita com a família.2,6
6Remédios: para que servem
Não existe remédio que trate o autismo em si. Os remédios servem para problemas que podem vir junto, como agressividade grave, agitação e desatenção, ansiedade ou dificuldade para dormir, e nunca substituem as terapias.6,7
No SUS, o protocolo do Ministério da Saúde prevê a risperidona para comportamento agressivo grave, a partir dos 5 anos, quando as terapias não bastaram. Quem usa precisa de consultas e exames regulares, porque o remédio pode aumentar o peso e alterar exames de sangue.6
Cuidados com o remédio
- A dose é calculada pelo médico e começa baixa. Siga exatamente a receita.6
- No remédio líquido, use a seringa dosadora e confira a concentração no rótulo.6
- Não pare nem mude a dose por conta própria; a retirada é planejada com a equipe.2
- Anote sono, apetite, peso e comportamento para levar às consultas.7
As fontes divergem: Melatonina para dormir
A SBP cita a melatonina como o remédio com melhor evidência para o sono dessas crianças, sempre depois de ajustar a rotina de sono e com orientação médica.8 O Ministério da Saúde informa que, no Brasil, a melatonina não é aprovada como medicamento e que o suplemento vendido não é indicado para crianças.9 Fale com o pediatra antes.
7Mitos e verdades
MitoVacina causa autismo.
Na verdadeNão causa. Um estudo na Dinamarca com mais de 650 mil crianças não encontrou mais autismo entre as vacinadas contra sarampo, caxumba e rubéola do que entre as não vacinadas.1
MitoParacetamol na gravidez causa autismo.
Na verdadeNão há prova de que cause. O maior estudo, com quase 2,5 milhões de crianças suecas comparando irmãos, não encontrou aumento de risco.10
MitoCada criança tem seu tempo; é melhor esperar.
Na verdadeDiante de sinais de alerta, esperar faz perder o período em que o cérebro mais aprende. O estímulo deve começar logo.2,4
MitoSe a criança fala, não pode ser autismo.
Na verdadeO atraso da fala é comum, mas não é obrigatório: há crianças autistas que falam bem e até com vocabulário rebuscado.1
8Direitos e onde buscar ajuda no SUS
- UBS: porta de entrada; faz a vigilância do desenvolvimento, inicia o estímulo e organiza o encaminhamento.2
- CER (Centro Especializado em Reabilitação): diagnóstico, reabilitação e acompanhamento por equipe multiprofissional.2
- CAPSi (Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil): casos de sofrimento psíquico intenso e crises; onde não houver CAPSi, o município deve organizar outro serviço.2
- Urgência: em crise com risco para a criança ou para outros, SAMU 192 e UPA.2
- A lei considera a pessoa com TEA pessoa com deficiência para todos os efeitos legais.2
- Ciptea: carteira de identificação gratuita, que dá prioridade no atendimento; é pedida aos órgãos do seu estado ou município com relatório médico que traga o CID e vale 5 anos.11
Perguntas frequentes
Com quantos meses dá para saber se o bebê tem autismo?
Os sinais costumam ficar claros entre 12 e 24 meses, mas alguns aparecem no primeiro ano, como pouco contato visual e não responder ao nome. O diagnóstico pode ser feito antes dos 3 anos quando os sinais estão presentes.
O que é o M-CHAT?
É um questionário de 20 perguntas de sim ou não, respondido pelos pais, que está na Caderneta da Criança. Serve para crianças de 16 a 30 meses e mostra se há risco de autismo. Não é diagnóstico: resultado alterado leva a uma avaliação mais completa.
Autismo tem cura?
Não se fala em cura, e sim em desenvolvimento. Com intervenção precoce e apoio, muitas crianças ganham comunicação, autonomia e qualidade de vida, e o nível de suporte pode mudar com o tempo.
Qual remédio trata o autismo?
Nenhum trata o autismo em si. Remédios como a risperidona servem para problemas associados, como agressividade grave, sempre junto com as terapias e com acompanhamento médico.
Meu filho tem autismo. O irmão também pode ter?
O risco é maior entre irmãos: a SBP cita recorrência de 6,1% a 18,7%, maior nos meninos. Por isso, os irmãos merecem atenção redobrada ao desenvolvimento.
Como tirar a carteira do autista (Ciptea)?
A Ciptea é gratuita e é pedida aos órgãos do seu estado ou município responsáveis pela política da pessoa com TEA, com relatório médico que traga o código da CID. Ela vale por 5 anos.
Conteúdo conferido em 7 de outubro de 2026 nas fontes abaixo, na ordem de prioridade: Sociedade Brasileira de Pediatria, Ministério da Saúde, UpToDate e Lexidrug. Quando as fontes discordam, seguimos a SBP e mostramos a diferença.
Referências
- Sociedade Brasileira de Pediatria. Manual de Orientação nº 176: Transtorno do Espectro do Autismo em Pediatria: etiologia, triagem e diagnóstico. Departamento Científico de Pediatria do Desenvolvimento e Comportamento, 14 de outubro de 2024. sbp.com.br ↗
- Ministério da Saúde. Linha de Cuidado para Pessoas com Transtorno do Espectro Autista – TEA. 1ª edição. Brasília, 2025. bvsms.saude.gov.br ↗
- Ministério da Saúde. Caderneta da Criança: Passaporte da Cidadania. 7ª edição. Brasília, 2024. Transtorno do Espectro Autista, p. 55; M-CHAT-R, p. 87. bvsms.saude.gov.br ↗
- Sociedade Brasileira de Pediatria. Manual de Orientação nº 150: Triagem Precoce para Autismo, Modified Checklist for Autism in Toddlers (M-CHAT-R/F). Departamento Científico de Pediatria do Desenvolvimento e Comportamento, 25 de abril de 2024. sbp.com.br ↗
- Sociedade Brasileira de Pediatria. Nota de Alerta nº 146: Diagnóstico e Atendimento pelo Sistema Único de Saúde para crianças com Espectro Autista. Departamento Científico de Pediatria do Desenvolvimento e Comportamento, 8 de abril de 2024. sbp.com.br ↗
- Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Comportamento Agressivo no Transtorno do Espectro do Autismo. Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 7, de 12 de abril de 2022. gov.br ↗
- Weissman Hale L, Harris HK. Autism spectrum disorder in children and adolescents: Pharmacologic interventions. UpToDate, tópico atualizado em 8 de dezembro de 2025. uptodate.com ↗
- Sociedade Brasileira de Pediatria. Documento Científico nº 121: Distúrbios do sono no Transtorno do Espectro do Autismo. Departamento Científico de Neurologia e Medicina do Sono, 7 de dezembro de 2023. sbp.com.br ↗
- Ministério da Saúde. Saúde de A a Z: Melatonina. Página consultada em 7 de outubro de 2026. gov.br ↗
- Sociedade Brasileira de Pediatria. Nota de Alerta nº 07: Esclarecimentos sobre o uso de Paracetamol na gestação e risco de Transtorno do Espectro Autista. Departamento Científico de Pediatria do Desenvolvimento e Comportamento, 29 de setembro de 2025. sbp.com.br ↗
- Brasil. Lei nº 13.977, de 8 de janeiro de 2020 (Lei Romeo Mion): cria a Carteira de Identificação da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista (Ciptea) e altera a Lei nº 12.764/2012 (Lei Berenice Piana). planalto.gov.br ↗
Questões comentadas sobre o tema
Este conteúdo informa e não substitui a consulta. Em caso de dúvida sobre a saúde da criança, procure o pediatra ou um serviço de saúde.
