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Desenvolvimento · Para famílias

Autismo em criança: os primeiros sinais e o que fazer

Perceber cedo faz diferença. Você não precisa de um laudo para a criança começar a receber estímulo e ajuda.

Equipe editorial Pediatrando Atualizado em 7 min de leitura
SBPMinistério da SaúdeUpToDate

Resposta rápida

  • O autismo, ou transtorno do espectro autista (TEA), é uma forma diferente de o cérebro se desenvolver, que afeta a comunicação, a interação com as pessoas e o comportamento.1
  • Os sinais costumam ficar claros entre 12 e 24 meses, mas alguns aparecem antes. Na dúvida, não espere: converse com o pediatra.1
  • O estímulo pode começar antes do diagnóstico fechado. Quanto mais cedo, melhor para o desenvolvimento da criança.2
Neste artigo
  1. O que é o autismo
  2. Sinais de alerta por idade
  3. Suspeitei de autismo: o que fazer
  4. Como é o diagnóstico e quem faz
  5. Intervenção precoce e terapias
  6. Remédios: para que servem
  7. Mitos e verdades
  8. Direitos e onde buscar ajuda no SUS
  9. Perguntas frequentes
  10. Referências

1O que é o autismo

O autismo é uma condição do neurodesenvolvimento, isto é, do jeito como o cérebro se forma e amadurece. A criança tem dificuldade na comunicação e na interação social e mostra comportamentos repetitivos ou interesses muito restritos. Ele nasce de uma combinação de fatores genéticos e ambientais; não é culpa dos pais nem da criação.1

Chama-se espectro porque cada criança é diferente: umas falam muito, outras quase nada; umas precisam de pouca ajuda, outras de muita. Por isso se fala em níveis de suporte (1, 2 e 3), que podem mudar com o tempo.1

No Censo de 2022, o Brasil contou cerca de 2,2 milhões de pessoas com TEA, 1% da população; é mais frequente em meninos.1,2

2Sinais de alerta por idade

Nenhum sinal sozinho fecha diagnóstico. O que chama atenção é o conjunto, e quando ele persiste.2

  1. Primeiro anoOlha pouco nos olhos, sorri pouco de volta, presta mais atenção em objetos que em pessoas e não responde quando é chamado pelo nome.1,2
  2. De 12 a 18 mesesNão aponta para mostrar o que quer ou o que achou interessante, não imita gestos como dar tchau e pode ainda não falar as primeiras palavras.2
  3. De 18 a 24 mesesNão segue o seu olhar nem o seu dedo, não brinca de faz de conta, repete o que escuta sem conversar e se fixa numa parte do brinquedo, como girar as rodinhas.2
  4. Em qualquer idadeMovimentos repetidos (balançar as mãos, girar, andar na ponta dos pés), rotina muito rígida, incômodo forte com barulhos ou texturas e pouco interesse por outras crianças.1

Procure o pediatra logo, sem esperar a próxima consulta, se a criança:

  • Perdeu habilidades que já tinha, como palavras, gestos ou brincadeiras.1
  • Não responde ao nome e quase não olha nos olhos.1
  • Com cerca de 1 ano e meio, ainda não aponta para mostrar coisas.2
  • Não fala nenhuma palavra, ou parou de falar.2
  • Você, a creche ou a escola sentem que algo está diferente, mesmo que o teste tenha dado baixo risco.3

3Suspeitei de autismo: o que fazer

  1. Converse com o pediatra ou na UBSA Unidade Básica de Saúde é a porta de entrada no SUS e acompanha o desenvolvimento em todas as consultas.2
  2. Faça o questionário M-CHATEle está na Caderneta da Criança e é respondido pelos pais, entre 16 e 30 meses. A SBP pede que seja aplicado em todas as crianças aos 18 e aos 24 meses. É uma triagem: resultado alterado não é diagnóstico.3,4
  3. Teste a audiçãoToda criança com suspeita deve ter a audição avaliada, porque a surdez também atrasa a fala.1
  4. Comece o estímulo jáSe faltar algum marco do desenvolvimento, a equipe deve iniciar estímulo na hora, sem esperar a confirmação do diagnóstico.2,3
As fontes divergem: Autismo só pode ser diagnosticado depois dos 3 anos?

Não. Em 2024, a SBP pediu ao Ministério da Saúde que revisse uma publicação nas redes sociais que falava em diagnóstico "a partir dos 3 anos", lembrando que o diagnóstico pode ser feito antes, se os sinais estiverem presentes.5 A Linha de Cuidado do Ministério, de 2025, não fixa idade mínima e diz que o cuidado começa pelos sinais, sem exigir diagnóstico fechado.2

4Como é o diagnóstico e quem faz

O diagnóstico é clínico: vem da conversa com a família, da observação da criança e de escalas próprias. Não existe exame de sangue ou de imagem que confirme o autismo.1,2

Quem avalia é uma equipe: pediatra, neuropediatra ou psiquiatra infantil, psicólogo, fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional. No SUS, isso pode ser feito na UBS ou em serviços especializados.2

Depois do diagnóstico, o médico pode pedir exames genéticos (como o do X-frágil) para procurar a causa e orientar a família sobre o risco em outros filhos. Ressonância e eletroencefalograma só entram em situações específicas, como convulsões ou perda de habilidades.1

5Intervenção precoce e terapias

O tratamento do autismo são as terapias: estimulação da comunicação e da interação, fonoaudiologia, terapia ocupacional, abordagens comportamentais e orientação aos pais. Revisões de estudos mostram benefício em vários modelos, sem um que seja superior a todos; a escolha é feita com a família.2,6

O que ajuda em casa

  • Participe das terapias e peça orientações para repetir as atividades no dia a dia.2
  • Mantenha rotina previsível e avise antes das mudanças.6
  • Em momentos de crise, diminua barulho e luz, fale com calma e evite confronto.2
  • Cuide também de você: o cuidado inclui apoio à família.2

6Remédios: para que servem

Não existe remédio que trate o autismo em si. Os remédios servem para problemas que podem vir junto, como agressividade grave, agitação e desatenção, ansiedade ou dificuldade para dormir, e nunca substituem as terapias.6,7

No SUS, o protocolo do Ministério da Saúde prevê a risperidona para comportamento agressivo grave, a partir dos 5 anos, quando as terapias não bastaram. Quem usa precisa de consultas e exames regulares, porque o remédio pode aumentar o peso e alterar exames de sangue.6

Cuidados com o remédio

  • A dose é calculada pelo médico e começa baixa. Siga exatamente a receita.6
  • No remédio líquido, use a seringa dosadora e confira a concentração no rótulo.6
  • Não pare nem mude a dose por conta própria; a retirada é planejada com a equipe.2
  • Anote sono, apetite, peso e comportamento para levar às consultas.7
As fontes divergem: Melatonina para dormir

A SBP cita a melatonina como o remédio com melhor evidência para o sono dessas crianças, sempre depois de ajustar a rotina de sono e com orientação médica.8 O Ministério da Saúde informa que, no Brasil, a melatonina não é aprovada como medicamento e que o suplemento vendido não é indicado para crianças.9 Fale com o pediatra antes.

7Mitos e verdades

MitoVacina causa autismo.

Na verdadeNão causa. Um estudo na Dinamarca com mais de 650 mil crianças não encontrou mais autismo entre as vacinadas contra sarampo, caxumba e rubéola do que entre as não vacinadas.1

MitoParacetamol na gravidez causa autismo.

Na verdadeNão há prova de que cause. O maior estudo, com quase 2,5 milhões de crianças suecas comparando irmãos, não encontrou aumento de risco.10

MitoCada criança tem seu tempo; é melhor esperar.

Na verdadeDiante de sinais de alerta, esperar faz perder o período em que o cérebro mais aprende. O estímulo deve começar logo.2,4

MitoSe a criança fala, não pode ser autismo.

Na verdadeO atraso da fala é comum, mas não é obrigatório: há crianças autistas que falam bem e até com vocabulário rebuscado.1

8Direitos e onde buscar ajuda no SUS

  • UBS: porta de entrada; faz a vigilância do desenvolvimento, inicia o estímulo e organiza o encaminhamento.2
  • CER (Centro Especializado em Reabilitação): diagnóstico, reabilitação e acompanhamento por equipe multiprofissional.2
  • CAPSi (Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil): casos de sofrimento psíquico intenso e crises; onde não houver CAPSi, o município deve organizar outro serviço.2
  • Urgência: em crise com risco para a criança ou para outros, SAMU 192 e UPA.2
  • A lei considera a pessoa com TEA pessoa com deficiência para todos os efeitos legais.2
  • Ciptea: carteira de identificação gratuita, que dá prioridade no atendimento; é pedida aos órgãos do seu estado ou município com relatório médico que traga o CID e vale 5 anos.11

Perguntas frequentes

Com quantos meses dá para saber se o bebê tem autismo?

Os sinais costumam ficar claros entre 12 e 24 meses, mas alguns aparecem no primeiro ano, como pouco contato visual e não responder ao nome. O diagnóstico pode ser feito antes dos 3 anos quando os sinais estão presentes.

O que é o M-CHAT?

É um questionário de 20 perguntas de sim ou não, respondido pelos pais, que está na Caderneta da Criança. Serve para crianças de 16 a 30 meses e mostra se há risco de autismo. Não é diagnóstico: resultado alterado leva a uma avaliação mais completa.

Autismo tem cura?

Não se fala em cura, e sim em desenvolvimento. Com intervenção precoce e apoio, muitas crianças ganham comunicação, autonomia e qualidade de vida, e o nível de suporte pode mudar com o tempo.

Qual remédio trata o autismo?

Nenhum trata o autismo em si. Remédios como a risperidona servem para problemas associados, como agressividade grave, sempre junto com as terapias e com acompanhamento médico.

Meu filho tem autismo. O irmão também pode ter?

O risco é maior entre irmãos: a SBP cita recorrência de 6,1% a 18,7%, maior nos meninos. Por isso, os irmãos merecem atenção redobrada ao desenvolvimento.

Como tirar a carteira do autista (Ciptea)?

A Ciptea é gratuita e é pedida aos órgãos do seu estado ou município responsáveis pela política da pessoa com TEA, com relatório médico que traga o código da CID. Ela vale por 5 anos.

Equipe editorial Pediatrando

Conteúdo conferido em 7 de outubro de 2026 nas fontes abaixo, na ordem de prioridade: Sociedade Brasileira de Pediatria, Ministério da Saúde, UpToDate e Lexidrug. Quando as fontes discordam, seguimos a SBP e mostramos a diferença.

Referências

  1. Sociedade Brasileira de Pediatria. Manual de Orientação nº 176: Transtorno do Espectro do Autismo em Pediatria: etiologia, triagem e diagnóstico. Departamento Científico de Pediatria do Desenvolvimento e Comportamento, 14 de outubro de 2024. sbp.com.br ↗
  2. Ministério da Saúde. Linha de Cuidado para Pessoas com Transtorno do Espectro Autista – TEA. 1ª edição. Brasília, 2025. bvsms.saude.gov.br ↗
  3. Ministério da Saúde. Caderneta da Criança: Passaporte da Cidadania. 7ª edição. Brasília, 2024. Transtorno do Espectro Autista, p. 55; M-CHAT-R, p. 87. bvsms.saude.gov.br ↗
  4. Sociedade Brasileira de Pediatria. Manual de Orientação nº 150: Triagem Precoce para Autismo, Modified Checklist for Autism in Toddlers (M-CHAT-R/F). Departamento Científico de Pediatria do Desenvolvimento e Comportamento, 25 de abril de 2024. sbp.com.br ↗
  5. Sociedade Brasileira de Pediatria. Nota de Alerta nº 146: Diagnóstico e Atendimento pelo Sistema Único de Saúde para crianças com Espectro Autista. Departamento Científico de Pediatria do Desenvolvimento e Comportamento, 8 de abril de 2024. sbp.com.br ↗
  6. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Comportamento Agressivo no Transtorno do Espectro do Autismo. Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 7, de 12 de abril de 2022. gov.br ↗
  7. Weissman Hale L, Harris HK. Autism spectrum disorder in children and adolescents: Pharmacologic interventions. UpToDate, tópico atualizado em 8 de dezembro de 2025. uptodate.com ↗
  8. Sociedade Brasileira de Pediatria. Documento Científico nº 121: Distúrbios do sono no Transtorno do Espectro do Autismo. Departamento Científico de Neurologia e Medicina do Sono, 7 de dezembro de 2023. sbp.com.br ↗
  9. Ministério da Saúde. Saúde de A a Z: Melatonina. Página consultada em 7 de outubro de 2026. gov.br ↗
  10. Sociedade Brasileira de Pediatria. Nota de Alerta nº 07: Esclarecimentos sobre o uso de Paracetamol na gestação e risco de Transtorno do Espectro Autista. Departamento Científico de Pediatria do Desenvolvimento e Comportamento, 29 de setembro de 2025. sbp.com.br ↗
  11. Brasil. Lei nº 13.977, de 8 de janeiro de 2020 (Lei Romeo Mion): cria a Carteira de Identificação da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista (Ciptea) e altera a Lei nº 12.764/2012 (Lei Berenice Piana). planalto.gov.br ↗

Questões comentadas sobre o tema

Este conteúdo informa e não substitui a consulta. Em caso de dúvida sobre a saúde da criança, procure o pediatra ou um serviço de saúde.

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A versão técnica deste guia traz a pontuação do M-CHAT-R/F, os exames da investigação, as doses de risperidona do PCDT e do Lexidrug e as diferenças entre as diretrizes.