Pontos-chave
- Dose pela SBP (2025): 10–16 mg/kg/dose, a cada 6–8 h, a partir de 3 meses e > 5 kg; máximo de 40–64 mg/kg/dia, conferindo a bula. Na dengue, 10 mg/kg a cada 6 h.1
- Gotas: 500 mg/mL, 1 mL = 20 gotas, 1 gota = 25 mg. Solução oral: 50 mg/mL, dez vezes menos concentrada. "1 gota/kg" = 25 mg/kg: superdose.1,2
- Hipotensão é o efeito adverso mais frequente na rotina, em geral por dose acima da faixa. Agranulocitose é excepcional e imprevisível; hemograma de rotina não é recomendado.1,3
Neste artigo
1O que é e como age
A dipirona (metamizol) é um analgésico e antitérmico do grupo das pirazolonas, sem efeito anti-inflamatório relevante. É uma pró-droga: os metabólitos ativos se formam após a primeira passagem hepática. O início de ação é de 30 a 60 minutos e a duração, de 4 a 6 horas. É indicada para febre leve, moderada e alta e para dor leve, moderada e intensa.1
Meia-vida de eliminação de 2 a 5 horas, metabolismo intestinal e hepático e excreção renal.4 Como os demais antitérmicos, reduz a PGE2 hipotalâmica por inibição da COX; por isso, associar ou alternar antitérmicos não acrescenta efeito e soma risco.1
Eficácia. Em ensaio multinacional, randomizado e duplo-cego com 628 crianças de 6 meses a 6 anos, a normalização da temperatura foi de 82% com dipirona, 78% com ibuprofeno e 68% com paracetamol (p = 0,004); de 4 a 6 horas depois, a temperatura média era menor no grupo da dipirona.1
As fontes divergem: O lugar da dipirona: SBP, Anvisa e o FTN de 2010
A SBP coloca a dipirona entre os três antitérmicos recomendados no Brasil.1 O Formulário Terapêutico Nacional de 2010, do Ministério da Saúde, registra que ela foi banida em 33 países e considera que, com eficácia igual e menor segurança, só haveria indicação na febre intensa não controlada ou na intolerância a outros antitérmicos.4 O painel da Anvisa de 2001 concluiu que os riscos na população brasileira são baixos e similares ou menores que os de outros analgésicos.5 A Rename 2024 mantém a solução oral e a injetável no componente básico.6
2Doses por kg e por idade
| Situação | Dose | Fonte |
|---|---|---|
| Febre ou dor, a partir de 3 meses e > 5 kg | 10–16 mg/kg/dose, a cada 6–8 h; máx. 40–64 mg/kg/dia (conferir a bula por faixa etária) | SBP 2025, Quadro 1 |
| Suspeita de dengue (criança) | 10 mg/kg/dose, até de 6/6 h, respeitando a dose máxima por peso e idade | SBP 2025; MS, Dengue 2024 |
| Adolescente ≥ 15 anos ou > 53 kg, via oral | 500 mg a 1 g até 4×/dia; máx. 4 g/dia | Lexidrug |
| 3 meses a < 15 anos, IM, IV, oral ou retal | Varia muito com o peso: consultar a bula do produto | Lexidrug |
Doses do Documento Científico da SBP de 2025, do Apêndice H do manual de dengue do Ministério da Saúde e do Lexidrug.1,2,7
Dose de antitérmico pelo peso
Faixas do Quadro 1 da SBP (2025). Confira sempre a concentração do produto.
Digite o peso para ver a faixa de dose em mg e em mL.
Ferramenta de apoio para profissionais. Não substitui a prescrição nem a bula do produto. No app, a dose sai na receita, com a apresentação escolhida. Abrir o Pediatrando →
Via parenteral. O FTN traz dose por faixa de peso: 5–8 kg, 50 mg (só IM); 9–15 kg, 100 mg; 16–23 kg, 150 mg; 24–30 kg, 200 mg; 31–45 kg, 250 mg; 46–53 kg, 400 mg, repetindo em 6 a 8 horas. A injeção IV deve ser muito lenta, para evitar hipotensão: no adulto, até 500 mg/min.4
As fontes divergem: Quanto por dose: SBP, FTN e Lexidrug
A SBP indica 10–16 mg/kg/dose e remete o teto diário à bula.1 As faixas parenterais do FTN de 2010 correspondem a cerca de 6 a 11 mg/kg por dose, abaixo da faixa da SBP.4 O Lexidrug não fixa mg/kg para menores de 15 anos e manda seguir a bula de cada produto, porque a dose "varia muito com o peso".7 Na prática, a faixa da SBP vale para a via oral; na IV, a velocidade de infusão pesa tanto quanto a dose.
As fontes divergem: 10 mg/kg na dengue × 10–16 mg/kg fora dela
O mesmo documento da SBP usa 10 mg/kg a cada 6 horas na seção de arboviroses, valor igual ao do manual de dengue do Ministério da Saúde, contra 10–16 mg/kg a cada 6–8 horas no Quadro 1.1,2 Nenhum dos dois explica a diferença; a calculadora abaixo usa 10 mg/kg quando a dengue é marcada.
3Apresentações e a conta das gotas
| Apresentação | Concentração | Equivalência |
|---|---|---|
| Solução oral em gotas | 500 mg/mL | 1 mL = 20 gotas; 1 gota = 25 mg (produto de referência) |
| Solução oral | 50 mg/mL | 1 mL = 50 mg; 10 mL = 500 mg |
| Comprimido | 500 mg | Dose oral do adolescente ≥ 15 anos ou > 53 kg |
| Solução injetável | 500 mg/mL | Diluir e infundir devagar; usar logo após abrir a ampola |
Concentrações do manual de dengue do Ministério da Saúde e da Rename 2024; 1 gota = 25 mg pela SBP; orientações da injetável pelo FTN.1,2,4,6
| Peso | 10–16 mg/kg | Gotas (500 mg/mL) | Solução oral (50 mg/mL) | "1 gota/kg" |
|---|---|---|---|---|
| 6 kg | 60–96 mg | 2–4 gotas (0,12–0,19 mL) | 1,2–1,9 mL | 6 gotas = 150 mg (25 mg/kg) |
| 10 kg | 100–160 mg | 4–6 gotas (0,2–0,32 mL) | 2–3,2 mL | 10 gotas = 250 mg (25 mg/kg) |
| 20 kg | 200–320 mg | 8–13 gotas (0,4–0,64 mL) | 4–6,4 mL | 20 gotas = 500 mg (25 mg/kg) |
Conta feita com a faixa do Quadro 1 da SBP e 1 gota = 25 mg (20 gotas/mL); gotas arredondadas.1,2 Gotejadores de genéricos e similares variam: prescreva em mL quando houver dúvida.
A pegadinha das dez vezes. A solução oral (50 mg/mL) e as gotas (500 mg/mL) têm o mesmo princípio ativo e concentrações dez vezes diferentes. Trocar uma pela outra mantendo o volume multiplica ou divide a dose por dez. Na receita, escreva a apresentação, a concentração, a dose em mg e o volume.2,6
Erros de dose são a regra, não a exceção. No estudo brasileiro citado pela SBP, com 575 cuidadores, 43,3% das crianças recebiam subdose e 8% superdose; os gotejadores entregavam gotas de volume variável, quase sempre menor que o do produto de referência.1 Em Recife, entre 117 crianças que receberam dipirona, 89,7% tinham dose incorreta, e 84,8% dos erros eram de dose acima da recomendada.8
4Efeitos adversos e agranulocitose
Na rotina pediátrica, o efeito adverso mais frequente é a hipotensão, atribuída principalmente à dose acima da faixa. Também ocorrem urticária e exantema, anafilaxia, broncoespasmo e, excepcionalmente, agranulocitose.1 O FTN lista ainda vasculite, síndrome de Stevens-Johnson e necrólise epidérmica tóxica, anemia hemolítica, anemia aplástica, trombocitopenia, nefrite intersticial aguda, sonolência e cefaleia.4
Agranulocitose. É imprevisível, não depende da dose e pode ocorrer após uso breve, prolongado ou intermitente.4 Pode surgir a qualquer momento do tratamento ou logo depois de suspendê-lo, inclusive em quem já usou dipirona sem problema. Na suspeita (febre, calafrios, dor de garganta, úlceras dolorosas em mucosas), a EMA orienta suspender o fármaco e pedir hemograma com diferencial imediatamente, sem esperar o resultado para parar.3
O uso junto com antibiótico pode mascarar os sintomas da agranulocitose. A EMA deixou de recomendar hemograma de rotina durante o tratamento, por falta de evidência de que ele antecipe o diagnóstico.3
As fontes divergem: Qual é o risco real de agranulocitose?
O painel da Anvisa de 2001, com dados do Estudo de Boston (22,2 milhões de pessoas em 7 países), estimou excesso de risco de, no máximo, 1,1 caso por milhão de expostos, e registrou que a agranulocitose é muito rara em crianças.5 O FTN de 2010 cita estimativa de pelo menos 7.000 casos por ano no mundo, mas também o estudo latino-americano LATIN, que não associou a dipirona a maior risco.4 A incidência varia por região: a razão de risco relatada vai de 0,8 a 23,7.9 Para a SBP, a reação é excepcional.1
5Contraindicações e interações
- Idade e peso: menores de 3 meses ou de 5 kg.1,4
- Sangue e medula: discrasias sanguíneas, supressão medular, doença hematopoética e agranulocitose prévia por dipirona ou outras pirazolonas e pirazolidinas.3,4
- Hipersensibilidade à dipirona, ao AAS ou a outros AINE.4
- Cautela: deficiência de G6PD, porfiria, cardiopatia, insuficiência hepática e insuficiência renal; usar pelo menor tempo possível.4
Interações relevantes em pediatria. Metotrexato: mais toxicidade, sobretudo mielossupressão, com monitorização cuidadosa. Ciclosporina e tacrolimo: mais nefrotoxicidade, com controle de creatinina e diurese. Lítio: risco de toxicidade. Diuréticos: menor efeito diurético. Na criança em quimioterapia ou transplantada, pese esses riscos antes de prescrever.4
Não associar a outro antitérmico. A SBP não recomenda alternar nem combinar dipirona com paracetamol ou ibuprofeno: o mecanismo é o mesmo e o risco de evento adverso se multiplica sem ganho no controle da febre.1
6Intoxicação e quando internar
Os dados de superdose são escassos e vêm de centros de toxicologia. Em 243 exposições agudas (mediana de 17 anos, de 4 meses a 83 anos), 16% tiveram toxicidade, a maioria gastrointestinal e leve, e não houve agranulocitose. O tratamento sugerido é de suporte, com descontaminação gastrointestinal se a ingestão tiver menos de 1 hora.9
Em 26 crianças e adolescentes com superdose de dipirona, 3 (12%) tiveram insuficiência renal aguda não oligúrica transitória; os autores recomendam monitorar a função renal.10 Some a isso a hipotensão, efeito ligado à dose acima da faixa.1
- Observar e monitorar: pressão arterial, perfusão e diurese na superdose; função renal se a dose foi alta.1,10
- Emergência: anafilaxia ou broncoespasmo após a dose.1
- Hemograma imediato e suspensão: febre, dor de garganta ou úlceras de mucosa durante ou logo após o uso.3
- Avaliação no mesmo dia: lesões bolhosas ou descamativas de pele.4
7Como o tema cai na prova
- "1 gota/kg" é superdose: no produto de referência, 1 gota = 25 mg, o que dá 25 mg/kg.1
- Dengue: dipirona e paracetamol são permitidos; AAS e AINE, contraindicados.1,2
- Idade mínima: 3 meses e 5 kg, mais do que a do paracetamol, que pode ser usado em neonatos acima de 3 kg.1
- Hipotensão é o efeito adverso mais comum; agranulocitose é rara e independe da dose.1,4
- Superdose: a toxicidade costuma ser gastrointestinal e leve, e o tratamento sugerido é de suporte.9
Perguntas frequentes
Qual a dose de dipirona por kg em criança?
Pela SBP (2025), 10 a 16 mg/kg por dose, a cada 6 a 8 horas, a partir de 3 meses e 5 kg, com máximo de 40 a 64 mg/kg/dia, conferindo a bula. Na suspeita de dengue, o documento e o Ministério da Saúde usam 10 mg/kg a cada 6 horas.
Quantas gotas de dipirona por kg?
Com gotas de 500 mg/mL (1 gota = 25 mg no produto de referência), a faixa de 10 a 16 mg/kg corresponde a cerca de 0,4 a 0,6 gota por kg. "1 gota por quilo" equivale a 25 mg/kg, acima da faixa recomendada. Como o gotejador varia entre marcas, prescreva em mL quando houver dúvida.
Qual a diferença entre dipirona gotas e solução oral?
As gotas têm 500 mg/mL (20 gotas por mL) e a solução oral, 50 mg/mL. A troca entre as duas sem refazer a conta causa erro de dez vezes na dose.
Precisa pedir hemograma de controle para quem usa dipirona?
Não de rotina. Em 2024, a agência europeia deixou de recomendar hemograma periódico. Na suspeita de agranulocitose (febre, dor de garganta, úlceras de mucosa), o fármaco é suspenso e o hemograma com diferencial é pedido de imediato.
Dipirona pode ser usada na dengue?
Sim. O Ministério da Saúde e a SBP indicam paracetamol ou dipirona; AAS e anti-inflamatórios são contraindicados pelo risco de sangramento e de lesão renal.
Qual o tratamento da intoxicação por dipirona?
Suporte, com descontaminação gastrointestinal se a ingestão tiver menos de 1 hora. A toxicidade costuma ser gastrointestinal e leve; vigiar hipotensão e função renal, que pode ter piora transitória.
Conteúdo conferido em 4 de outubro de 2026 nas fontes abaixo, na ordem de prioridade: Sociedade Brasileira de Pediatria, Ministério da Saúde, UpToDate e Lexidrug. Quando as fontes discordam, seguimos a SBP e mostramos a diferença.
Referências
- Sociedade Brasileira de Pediatria. Documento Científico nº 206: Abordagem da Febre Aguda em Pediatria e Reflexões sobre a febre nas arboviroses. Departamentos Científicos de Pediatria Ambulatorial e de Infectologia, 15 de maio de 2025. sbp.com.br ↗
- Ministério da Saúde. Dengue: diagnóstico e manejo clínico, adulto e criança. 6ª edição. Brasília, 2024. Apêndice H: uso de medicamentos para dengue. portaldeboaspraticas.iff.fiocruz.br ↗
- European Medicines Agency. Metamizole-containing medicinal products: referral (art. 107i). Recomendação do PRAC de 5 de setembro de 2024, endossada pelo CMDh em 18 de setembro de 2024. ema.europa.eu ↗
- Ministério da Saúde. Formulário Terapêutico Nacional 2010: Rename 2010. 2ª edição. Brasília, 2010. Monografia "dipirona sódica" e capítulo de analgésicos não opioides. bvsms.saude.gov.br ↗
- Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Painel Internacional de Avaliação da Segurança da Dipirona: relatório final. Brasília, 3 e 4 de julho de 2001 (cópia arquivada). web.archive.org ↗
- Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. 2ª edição. Brasília, 2025. gov.br ↗
- Lexidrug. Dipyrone (metamizole): International drug information (concise). Consultado em 4 de outubro de 2026. uptodate.com ↗
- Alves JGB, Cardoso Neto FJ, Almeida CDC, Almeida NDC. Dipyrone and acetaminophen: correct dosing by parents? São Paulo Medical Journal. 2007;125(1):57-9. doi.org ↗
- Bentur Y, Cohen O. Dipyrone overdose. Journal of Toxicology: Clinical Toxicology. 2004;42(3):261-5. doi.org ↗
- Abu-Kishk I, Goldman M, Mordish Y, Berkovitch M, Kozer E. Transient renal insufficiency following dipyrone overdose. Archives of Disease in Childhood. 2010;95(3):233-4. doi.org ↗
Questões comentadas sobre o tema
Material de apoio para profissionais de saúde. Não substitui o julgamento clínico, a bula nem as diretrizes originais.