Gestante, 17 anos, primigesta, realizou pré-natal com 7 consultas, sem comorbidades. No 1º trimestre, apresentou teste rápido reagente para sífilis. Na Unidade em que fazia o pré-natal, solicitou-se Veneral Disease Research Laboratory (VDRL), com título de 1/128, sendo realizado tratamento com penicilina benzatina 2.400.000 UI intramuscular, em 3 doses, com intervalo de 1 semana. Após o término do tratamento, foram realizados controles de VDRL: 1/64 e 1/16 meses antes do parto). RN, nascido de parto normal, com idade gestacional de 39 semanas. Na maternidade, os exames foram: VDRL materno: 1/32; VDRL do RN: 1/16; hemoglobina 15 g/ dL; hematócrito 40%; leucócitos 11.000/mm³; bastonetes 1%; segmentados 16%; linfócitos 66%; monócitos 15%; eosinófilos 2%; plaquetas 190.000/mm³. Líquor: ligeiramente turvo e xantocrômico; células: 20/mm³; hemácias: 100/mm³; proteínas: 140 mg/dL; glicose: 45 mg/dL. VDRL no líquor não reagente. Radiografia membros inferiores com sinal de Winberger. Em face do exposto, qual é a conduta correta para o RN?
Explicação
Uma pediatra explica a questão em voz alta e vai anotando, alternativa por alternativa.
Ler a transcrição
- Vamos começar analisando o caso clínico, que é bem rico em detalhes. Primeiro, a mãe, uma gestante de 17 anos, primigesta, fez um pré-natal com sete consultas, o que é um bom acompanhamento.
- No primeiro trimestre, ela teve um teste rápido reagente para sífilis, e o VDRL confirmou com um título de 1 para 128. Isso estabelece o diagnóstico de sífilis na gestação.
- O tratamento materno foi feito com penicilina benzatina, duas milhões e quatrocentas mil unidades internacionais, em três doses, com intervalo de uma semana. Isso é o esquema adequado para sífilis primária, secundária ou latente recente.
- Após o tratamento, os controles de VDRL da mãe mostraram uma queda de 1 para 128 para 1 para 16, o que representa uma queda de três diluições. Essa é uma resposta sorológica adequada ao tratamento materno.
- O recém-nascido nasceu a termo, com 39 semanas, de parto normal. Agora, vamos aos exames do bebê.
- O VDRL materno no parto era de 1 para 32, e o VDRL do recém-nascido foi de 1 para 16. O título do bebê não é quatro vezes menor que o da mãe, o que indica que ele tem sífilis congênita, e não apenas transferência passiva de anticorpos.
- O hemograma do recém-nascido estava normal, sem alterações significativas que pudessem indicar sífilis congênita grave no sangue periférico.
- No entanto, o líquor do recém-nascido apresentava-se ligeiramente turvo e xantocrômico, com 20 células por milímetro cúbico e proteínas de 140 miligramas por decilitro. Essas alterações são muito importantes, pois indicam acometimento do sistema nervoso central, mesmo que o VDRL no líquor não tenha reagido.
- Além disso, a radiografia dos membros inferiores mostrou o sinal de Winberger, que é uma manifestação radiológica de osteocondrite sifilítica. Isso é uma evidência clara de sífilis congênita com acometimento ósseo.
- Diante desses achados, temos um recém-nascido com sífilis congênita confirmada, com evidências de acometimento do sistema nervoso central e acometimento ósseo. Isso nos leva a um tratamento mais intensivo.
- Quando há alterações no líquor ou evidência de acometimento ósseo, o tratamento indicado é com penicilina cristalina, que atinge melhor o sistema nervoso central e é administrada por um período mais longo.
- Agora, vamos analisar as alternativas. A alternativa A sugere penicilina procaína por sete dias. Sete dias não completam o esquema indicado para sífilis congênita com acometimento, que é de dez dias.
- A alternativa C propõe penicilina G benzatina em dose única. A benzatina isolada não é adequada para tratar a doença com manifestações clínicas e possível acometimento neurológico ou ósseo, como é o caso aqui.
- A alternativa D sugere alta da maternidade sem antibioticoterapia. Os achados clínicos e radiológicos que vimos, como o líquor alterado e o sinal de Winberger, impedem a alta sem tratamento. Isso seria um erro grave.
- A alternativa E também fala em alta da maternidade sem antibioticoterapia. Além disso, o controle de teste treponêmico em um mês não substitui o tratamento e o seguimento com testes não treponêmicos, como o VDRL.
- Finalmente, a alternativa B indica penicilina cristalina, cinquenta mil unidades internacionais por quilo por dose, por via intravenosa, durante dez dias. Essa é a conduta correta, pois a penicilina cristalina por dez dias é a opção diante de sífilis congênita com avaliação liquórica alterada e acometimento ósseo.
- Então, uma criança com sífilis congênita e evidência de acometimento do sistema nervoso central ou ósseo, pense sempre em penicilina cristalina por dez dias.
- Nos vemos na próxima questão.
Dúvidas respondidas
Perguntas de quem estudou esta questão, respondidas com a fonte ao lado.
Fontes 1
- PCDT para prevenção da transmissão vertical — sífilis congênitaMinistério da Saúde, 2020 · conferida em 22/09/2026
Comentários atualizados em . Redação própria baseada no caso e nas referências indicadas. Anotações do PDF utilizadas como ponto de partida, sem reprodução literal. Comentário não oficial da banca ou da SBP.