Menino, 3 anos de idade, tem diagnóstico de anemia fal-ciforme a partir da triagem neonatal e acompanhamento ambulatorial. Tem hemoglobina basal de 9 g/dL e vacinação em dia, realizada em Centro de Imunobiológicos Especiais. É atendida em UPA por recusa alimentar e dor abdominal generalizada. Ao exame está afebril, pálida, descorada +++/+4, com FC = 124 bpm, FR = 36 mrm, SatO2= 92%. Ausculta cardíaca com soprossistólico sem irradiação, ausculta pulmonar sem alterações. Abdome levemente globoso, com RHA diminuídos doloroso à palpação. Fígado palpável a 2 cm do RCD e baço a 5 cm do RCE. A hemoglobina atual é de 5,2 g/dL. O diagnóstico provável para o quadro descrito é
Explicação
Uma pediatra explica a questão em voz alta e vai anotando, alternativa por alternativa.
Ler a transcrição
- Vamos começar analisando o enunciado, destacando os pontos importantes. Primeiro, temos um menino de três anos de idade. Essa idade é crucial para pensarmos nas complicações da anemia falciforme.
- Ele tem o diagnóstico de anemia falciforme, confirmado pela triagem neonatal, o que já nos direciona para as possíveis crises e complicações da doença.
- A hemoglobina basal dele é de nove gramas por decilitro. Esse é o valor de referência para compararmos com a hemoglobina atual e avaliarmos a queda.
- Ele chega à UPA com recusa alimentar e dor abdominal generalizada. Esses são os sintomas agudos que o levaram ao atendimento.
- Ao exame físico, ele está pálido e descorado três cruzes em quatro, o que é um sinal clínico muito forte de anemia grave.
- A frequência cardíaca de 124 batimentos por minuto, a frequência respiratória de 36 incursões por minuto e a saturação de oxigênio de 92 por cento indicam que ele está taquicárdico, taquipneico e hipoxêmico, sugerindo um quadro de instabilidade hemodinâmica e respiratória.
- No abdome, encontramos um fígado palpável a dois centímetros do rebordo costal direito e um baço palpável a cinco centímetros do rebordo costal esquerdo. Essa esplenomegalia significativa é um achado muito importante.
- Por fim, a hemoglobina atual é de 5,2 gramas por decilitro. Comparando com a basal de nove gramas por decilitro, temos uma queda abrupta e significativa da hemoglobina.
- Juntando a palidez intensa, a taquicardia e a queda acentuada da hemoglobina, percebemos que o paciente está com uma anemia aguda grave, que está causando repercussão sistêmica.
- A esplenomegalia significativa, ou seja, o baço muito aumentado, em uma criança com anemia falciforme e queda aguda de hemoglobina, é um sinal clássico de que o baço está sequestrando o sangue.
- Portanto, a combinação de uma criança falcêmica, com queda aguda e importante da hemoglobina, esplenomegalia e sinais de instabilidade hemodinâmica, aponta fortemente para um quadro de sequestro esplênico.
- Analisando as alternativas, a letra A sugere crise álgica por vaso-oclusão. Embora a dor abdominal seja um sintoma, a dor vaso-oclusiva isolada não explica a queda tão acentuada da hemoglobina nem o aumento do baço que observamos no exame.
- A alternativa B fala em trombose de vasos mesentéricos. Apesar de poder causar dor abdominal, a isquemia mesentérica não é a explicação principal para o conjunto de achados hematológicos, como a anemia aguda, e a esplenomegalia presente neste caso.
- A alternativa C sugere pródromos de gastroenterite com paresia e distensão de alças intestinais. Uma gastroenterite pode causar dor abdominal e recusa alimentar, mas não justifica uma anemia aguda tão importante e, principalmente, a esplenomegalia que vimos.
- A alternativa D menciona insuficiência cardíaca por anemia. A anemia grave pode, de fato, levar a um sopro funcional, como o descrito, e até insuficiência cardíaca. No entanto, o diagnóstico central de insuficiência cardíaca exigiria mais evidências de congestão, e não explica a esplenomegalia aguda e a queda súbita da hemoglobina como causa primária do quadro.
- Por fim, a alternativa E, sequestro esplênico, é a mais provável. O sequestro no baço produz uma anemia aguda importante, com queda súbita da hemoglobina, esplenomegalia e pode comprometer a circulação, levando a sinais de choque, como a taquicardia e a hipoxemia que o paciente apresenta.
- Então, em uma criança com anemia falciforme, com queda aguda e importante da hemoglobina e esplenomegalia, pense sempre em sequestro esplênico, uma emergência que pode levar rapidamente ao choque hipovolêmico.
- Nos vemos na próxima questão.
Dúvidas respondidas
Perguntas de quem estudou esta questão, respondidas com a fonte ao lado.
Fontes 1
- Protocolo clínico e diretrizes terapêuticas da doença falciformeMinistério da Saúde, 2024 · conferida em 22/09/2026
Comentários atualizados em . Redação própria baseada no caso e nas referências indicadas. Anotações do PDF utilizadas como ponto de partida, sem reprodução literal. Comentário não oficial da banca ou da SBP.