Menino, 4 anos de idade, apresenta vômitos, cólicas e evacuações com sangue há 2 dias. Passou 10 dias em fazenda de gado, em visita aos avós. Após 5 dias do retorno para casa, iniciou quadro de diarreia aquosa, 3 a 5 evacuações ao dia, por 3 dias e evolui para o quadro atual. Ao exame está hidratado, descorado ++/4+, anictérico, FR = 110 bpm, FR = 24 mrm, Tec = 3 seg. e Sato, 95%. Ausculta cardíaca e pulmonar sem alterações, abdome doloroso à palpação, fígado e baço não palpáveis. Foi realizado hemograma com Hb 7,1 g/dL, Htc 23%, RDW 15, reticulócitos 10% e presença de esquizócitos no esfregaço. Leucocitos 11.000μ/L com distribuição (2-62-2-0-31-3), plaquetas 95.000/mm³, DHL = 380 U/L, Na = 130 mEq/L, K = 3 mEq/L, Ureia = 50 mg/dL e creatinina = 2 mg/dL. O diagnóstico pertinente ao quadro e a conduta indicada são, respectivamente:
Explicação
Uma pediatra explica a questão em voz alta e vai anotando, alternativa por alternativa.
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- Vamos analisar o caso. Temos um menino de 4 anos de idade, o que é uma faixa etária comum para algumas doenças pediátricas, incluindo a síndrome hemolítico-urêmica.
- Ele apresenta vômitos, cólicas e evacuações com sangue há 2 dias. A presença de sangue nas fezes é um sinal de disenteria, que é um sintoma importante na evolução para a síndrome hemolítico-urêmica.
- Um dado crucial é que ele passou 10 dias em fazenda de gado. Essa exposição a animais de fazenda, especialmente gado, é um fator de risco conhecido para infecções por E. coli enterohemorrágica, que é a principal causa da síndrome hemolítico-urêmica.
- A história de ter iniciado com diarreia aquosa por 3 dias e depois evoluir para o quadro atual, com sangue, é a progressão clássica de uma infecção por E. coli enterohemorrágica antes do desenvolvimento da síndrome hemolítico-urêmica.
- Ao exame físico, ele está descorado dois cruzes em quatro cruzes, o que já nos sugere anemia.
- O hemograma confirma a anemia com uma hemoglobina de 7,1 gramas por decilitro e um hematócrito de 23 por cento. Isso é uma anemia significativa.
- A presença de reticulócitos de 10 por cento indica que a medula óssea está tentando compensar a perda de glóbulos vermelhos, o que é comum em anemias hemolíticas.
- E o achado mais importante no hemograma é a presença de esquizócitos no esfregaço. Esquizócitos são fragmentos de glóbulos vermelhos, e sua presença é patognomônica de anemia hemolítica microangiopática, um dos pilares da síndrome hemolítico-urêmica.
- As plaquetas estão em 95.000 por milímetro cúbico, o que configura trombocitopenia, ou seja, baixa contagem de plaquetas. Essa é a segunda parte da tríade da síndrome hemolítico-urêmica.
- O DHL, ou desidrogenase lática, está elevado em 380 unidades por litro. Isso é um marcador de hemólise, confirmando que há destruição de glóbulos vermelhos.
- Por fim, a ureia de 50 miligramas por decilitro e a creatinina de 2 miligramas por decilitro indicam uma lesão renal aguda. Essa é a terceira parte da tríade da síndrome hemolítico-urêmica.
- Juntando a exposição a gado e a evolução da diarreia, temos um forte indício de infecção por E. coli enterohemorrágica, que é a causa mais comum da síndrome hemolítico-urêmica.
- A presença de anemia hemolítica microangiopática, trombocitopenia e lesão renal aguda forma a tríade clássica da síndrome hemolítico-urêmica.
- Portanto, o diagnóstico mais pertinente é a síndrome hemolítico-urêmica, provavelmente desencadeada por E. coli enterohemorrágica.
- Agora, vamos analisar as alternativas. A alternativa A sugere disenteria por Campylobacter spp e tratamento ambulatorial com hidratação oral e levofloxacina. Essa opção ignora completamente os achados de anemia microangiopática, plaquetopenia e lesão renal aguda, que indicam uma condição muito mais grave do que uma disenteria simples.
- A alternativa B propõe disenteria por Shiguella spp e internação com ceftriaxona intravenosa. Embora a Shiguella possa causar disenteria e, em alguns casos, SHU, o tratamento antibiótico para disenteria não substitui o reconhecimento e manejo da síndrome hemolítico-urêmica, que é a principal complicação aqui.
- A alternativa C fala em enterocolite aguda por Yersinia spp, com hidratação oral e azitromicina. Uma enterocolite simples não explica a tríade hematológica e renal tão evidente no paciente, como a anemia hemolítica, a trombocitopenia e a lesão renal.
- A alternativa D sugere diarreia aguda por Salmonella spp, complicada por infecção sistêmica, com internação e ceftriaxona. Embora a infecção sistêmica seja um diferencial, a presença de esquizócitos e a lesão renal após a disenteria favorecem fortemente a síndrome hemolítico-urêmica, que é uma complicação específica e grave, e não apenas uma infecção sistêmica genérica.
- A alternativa E é a correta. Ela descreve infecção por E. coli enterohemorrágica, complicada por síndrome hemolítica urêmica, e indica internação para suporte clínico. Essa opção engloba todos os achados do paciente: a etiologia provável pela exposição e evolução da diarreia, o diagnóstico da síndrome hemolítico-urêmica pela tríade clássica e a conduta adequada de suporte hospitalar, que é fundamental para essa condição grave.
- Então, criança com diarreia sanguinolenta após exposição a gado, que evolui com anemia hemolítica microangiopática, trombocitopenia e lesão renal aguda, pense sempre em síndrome hemolítico-urêmica e na necessidade de suporte hospitalar.
- Nos vemos na próxima questão.
Dúvidas respondidas
Perguntas de quem estudou esta questão, respondidas com a fonte ao lado.
Fontes 1
- Hemolytic uremic syndrome in childrenNIDDK/NIH, versão online · conferida em 22/09/2026
Comentários atualizados em . Redação própria baseada no caso e nas referências indicadas. Anotações do PDF utilizadas como ponto de partida, sem reprodução literal. Comentário não oficial da banca ou da SBP.