Menina, três meses de vida, é levada ao pediatra com queixa de choro intenso e irritabilidade, principalmente após as mamadas. A mãe relata que a bebê se contorce, arqueia o dorso e para de mamar subitamente, parecendo desconfortável. Nega febre, mas nos últimos dias ela tem dormido mal e apresenta episódios de engasgos e tosse durante o sono. Ganha peso lentamente, apesar de mamar com frequência. Ao exame físico, está em bom estado geral, sem sinais de infecção ou alterações respiratórias. Com base nesse quadro, qual é o diagnóstico mais provável?
Explicação
Uma pediatra explica a questão em voz alta e vai anotando, alternativa por alternativa.
Ler a transcrição
- Vamos começar analisando o caso clínico. Temos uma menina de três meses de vida, e essa idade é muito importante para a gente pensar nos diagnósticos diferenciais mais comuns nessa faixa etária.
- Ela apresenta choro intenso e irritabilidade, especialmente após as mamadas. Isso já nos direciona para um desconforto relacionado à alimentação.
- A mãe descreve que a bebê se contorce e arqueia o dorso. Essa postura, conhecida como postura de Sandifer, é um sinal clássico de desconforto esofágico.
- Além disso, a bebê para de mamar subitamente, o que reforça a ideia de que a alimentação está associada a um evento doloroso ou muito incômodo.
- A ausência de febre nos ajuda a afastar processos infecciosos agudos como causa principal desses sintomas.
- A mãe também relata que a bebê tem dormido mal e apresenta episódios de engasgos e tosse durante o sono. Isso sugere que o problema não se restringe ao período de vigília e pode ter repercussões respiratórias ou noturnas.
- Um dado muito importante é que ela ganha peso lentamente, apesar de mamar com frequência. Isso indica que há uma falha de crescimento, o que diferencia um quadro benigno de um que precisa de intervenção.
- O exame físico mostra um bom estado geral, sem sinais de infecção ou alterações respiratórias evidentes no momento, o que é importante para descartar outras condições agudas.
- Juntando todos esses pontos, a idade da bebê, os sintomas de choro e irritabilidade associados às mamadas, a postura de arqueamento do dorso e a recusa súbita já nos dão uma forte indicação de desconforto esofágico.
- A presença de engasgos e tosse durante o sono, somada à dificuldade para dormir, sugere que esse desconforto pode estar levando a microaspirações ou irritação das vias aéreas, o que é uma repercussão importante.
- E, finalmente, o ganho de peso lento, mesmo com mamadas frequentes, é um sinal de que o quadro não é apenas fisiológico, mas está causando um impacto nutricional significativo na criança.
- Considerando todos esses achados em conjunto, estamos diante de um quadro que aponta para uma condição que causa desconforto gastroesofágico com repercussão clínica.
- Vamos analisar a alternativa A, que sugere cólica do lactente. A cólica é um choro paroxístico, geralmente no fim da tarde, em bebês que crescem bem. Mas nossa paciente tem engasgos, tosse noturna, recusa às mamadas e ganho de peso lento, o que não se encaixa na definição de cólica.
- A alternativa B fala em intolerância à lactose. A intolerância primária é rara em lactentes, e a secundária geralmente vem após uma gastroenterite. Os sintomas típicos são distensão abdominal, flatulência e diarreia ácida com assaduras, o que é bem diferente do arqueamento, engasgos e tosse da nossa paciente.
- A alternativa D propõe estenose hipertrófica do piloro. Essa condição geralmente se manifesta entre duas e oito semanas de vida, com vômitos em jato não biliosos e fome após vomitar. Nossa paciente tem três meses, não tem vômitos em jato, e sim engasgos e tosse, o que torna essa hipótese improvável.
- Por fim, a alternativa C, refluxo gastroesofágico. O choro e irritabilidade ligados às mamadas, o arqueamento do dorso, a recusa súbita, os engasgos e a tosse noturna, e o ganho ponderal lento são características que, em conjunto, definem a doença do refluxo gastroesofágico, que é diferente do refluxo fisiológico sem repercussão.
- Então, em uma criança de três meses, com irritabilidade pós-mamada, arqueamento do dorso e ganho de peso lento, pense sempre em doença do refluxo gastroesofágico.
- Nos vemos na próxima questão.
Pediatrando o tema
Refluxo que atrapalha: DRGE do lactente — uma pediatra ensina o tema da questão na lousa, escrevendo enquanto fala.em validação
Baseado em: Doença do refluxo gastroesofágico — Departamento de Gastroenterologia (Guia de orientação) (SBP, 2024) · Pediatric GERD Clinical Practice Guidelines (NASPGHAN/ESPGHAN, 2018) · Gastroesophageal reflux in infants: Management (UpToDate (literatura internacional), 2025–2026). Conteúdo em validação — não é comentário oficial da SBP.
Dúvidas respondidas
Perguntas de quem estudou esta questão, respondidas com a fonte ao lado.
Fontes 1
- Doença do refluxo gastroesofágicoSBP, 2024 · conferida em 22/09/2026
Comentários atualizados em . Redação própria baseada no caso e nas referências indicadas. Comentário não oficial da banca ou da SBP.
Comentário atualizado em