Pré-escolar de 3 anos, sexo masculino, internado por abdome agudo obstrutivo, secundário a hérnia inguinal encarcerada. Optado por cirurgia aberta, evolui no pós-operatório com íleo paralítico persistente. Encontra-se em jejum há 4 dias, com sonda nasogástrica aberta com drenagem volumosa. Exame físico: estado geral regular, palidez 1+/4+, hidratado, acianótico, anictérico, eupneico, afebril. Peso: 12,1 kg (Z-score peso/idade -2,3, Z-score altura/idade -1,8). Frequência cardíaca: 122 bpm e pressão arterial adequada para idade. Abdome: distendido, sem visceromegalias, ruídos hidroaéreos ausentes. Ferida cirúrgica em bom estado. Sem outras alterações. Exames laboratoriais: * Hemoglobina 10 g/dL; * Hematócrito 30 %; * Leucócitos 12000/mm3 (70% neutrófilos); * Plaquetas 250.000/mm3; * Albumina: 2,0 g/dL; * Na 135 mEq/L; * Potássio 3,5 mEq/L; * Fósforo: 2,3 mg/dL; * Magnésio: 1,4 mg/dL; * Glicemia: 68 mg/dL; * Ureia 18 mg/dL; * Creatinina 0,2 mg/dL. Além da correção e monitorização dos distúrbios hidroeletrolíticos, qual é a conduta nutricional mais adequada?
Decimal com vírgula. Crase ausente na alternativa.
Explicação
Uma pediatra explica a questão em voz alta e vai anotando, alternativa por alternativa.
Ler a transcrição
- Vamos começar analisando o caso clínico, destacando os pontos mais importantes para a nossa decisão.
- A criança está internada por um abdome agudo obstrutivo, que já foi operado, mas agora apresenta um íleo paralítico persistente.
- Esse íleo paralítico já levou a um jejum prolongado, de quatro dias, o que é um tempo considerável para uma criança.
- Além disso, a sonda nasogástrica aberta com drenagem volumosa reforça que o trânsito intestinal não está funcionando bem.
- O peso da criança, com Z-score de peso por idade de menos 2,3, indica que ela já está desnutrida, o que agrava a situação do jejum.
- O exame abdominal, com distensão e ruídos hidroaéreos ausentes, é mais uma evidência do íleo paralítico.
- A albumina sérica de 2,0 gramas por decilitro é um marcador importante, indicando uma hipoalbuminemia grave, que reflete o estado nutricional e inflamatório.
- Por fim, os eletrólitos, especialmente o potássio, o fósforo e o magnésio, estão com níveis baixos, o que nos alerta para um risco elevado de síndrome de realimentação.
- Com o íleo paralítico persistente, a sonda nasogástrica drenando muito e o abdome distendido e sem ruídos, fica claro que não podemos usar a via enteral para alimentar essa criança.
- Considerando que a criança já está desnutrida e em jejum há quatro dias, e não podemos usar o trato gastrointestinal, a nutrição parenteral se torna a única opção para fornecer os nutrientes necessários.
- Os eletrólitos baixos, como o fósforo, o potássio e o magnésio, são um sinal de alerta para o alto risco de síndrome de realimentação, o que exige um início cuidadoso da nutrição parenteral.
- Agora, vamos analisar as alternativas, começando pelas incorretas.
- A alternativa A sugere iniciar infusão diária de albumina a vinte por cento, mas a albumina infundida não trata a desnutrição.
- A hipoalbuminemia aqui reflete um estado inflamatório e de déficit proteico, e a albumina exógena é catabolizada sem ganho nutricional real.
- A alternativa B propõe iniciar nutrição enteral por sonda gástrica, o que é totalmente contraindicado neste caso.
- Com o íleo paralítico persistente, o abdome distendido e a drenagem volumosa pela sonda, a dieta enteral aumentaria o risco de vômitos, distensão e até aspiração.
- A alternativa D sugere adicionar vitaminas à hidratação venosa, mas isso não é suficiente para uma criança desnutrida em jejum prolongado.
- As vitaminas são importantes, especialmente a tiamina pelo risco de realimentação, mas elas não fornecem as calorias nem as proteínas que a criança precisa urgentemente.
- Finalmente, a alternativa C indica iniciar nutrição parenteral, que é a conduta correta para este paciente.
- A criança está desnutrida, em jejum há quatro dias e não pode usar o trato gastrointestinal devido ao íleo paralítico.
- A menção à prevenção da síndrome de realimentação é um pouco imprecisa, pois a nutrição parenteral em si não previne, mas exige um manejo cuidadoso para evitar essa síndrome, especialmente com os eletrólitos baixos que observamos.
- Para resumir nosso raciocínio, em uma criança de três anos, com íleo paralítico persistente e desnutrição, pense sempre em nutrição parenteral.
- Nos vemos na próxima questão.
Dúvidas respondidas
Perguntas de quem estudou esta questão, respondidas com a fonte ao lado.
Fontes 1
- Manual de suporte nutricional — 2ª ediçãoSBP, 2021 · conferida em 22/09/2026
Comentários atualizados em . Redação própria baseada no caso e nas referências indicadas. Comentário não oficial da banca ou da SBP.
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